Do tacto ao aroma: um paladar distinto

14Dez16

blindekuh_basel_-27-4c2f178eEntrar. Jantar ou almoçar. Beber um copo de vinho. Sentar-se. Conversar. Até aqui, tudo parece normal num restaurante. Mas e se, quando entrar, a luz estiver apagada e tiver que fazer tudo num escuro profundo?

A primeira coisa é deixar o telemóvel, o relógio iluminado e os casacos no cacifo da entrada. Entramos num pequeno comboio, se formos um grupo, liderado pela pessoa que nos servirá durante a refeição. Somos pegados pela mão e deixados atrás da cadeira que nos vai acompanhar durante uns momentos. Sentamo-nos sozinhos. Somos um pequeno grupo com reserva marcada e menu já escolhido. Mas quando se trata de um casal ou família que apareça espontaneamente, pouco também muda, segundo Simone Schmieder, responsável pela comunicação do Blindekuh de Basel. ” Depois de deixarem os seus pertences à entrada, os convidados selecionam o menu na recepção (o menu é mostrado no monitor). Claro que também é possível selecionar o menu com antecedência no nosso website. É claro que os desejos em relação aos alimentos sem glúten ou sem lactose podem ser concretizados. Minutos mais tarde são conduzidos por uma pessoa cega na sala de jantar e acompanhados para a mesa. Após o jantar, o pagamento é feito na recepção”, esclarece.

Abra a boca e feche os olhos. Imagine provar um menu que apenas viu na carta. Sentir os aromas, texturas, temperaturas, sabores. Agora abra os olhos. O escuro permanence. Este é o princípio de um jogo de sensações. Cabe a si deixar os seus sentidos adivinharem, sentirem e degustarem um jantar com um menu secreto, onde a visão não está na ementa.

Começa o jogo do advinha. São vegetais. Tem cenoura? Courgete de certeza. Há uma couve estranha. Será repolho? Os palpites não terminam. Mas o sabor é uma perdição.

Servir às escuras. Deitar vinho ou água num copo sem qualquer luz. Não são tarefas fáceis, sem uma única vela. Se quiser ir à casa-de-banho aqui tem de chamar o empregado de serviço para o acompanhar. 

O conceito deste restaurante é muito peculiar. ” Aqui, o cliente entra numa viagem no nosso mundo da escuridão: experimenta sabores, cheiros, sons e outras sensações num novo conceito de luz. A ideia não se baseia apenas no entretenimento, mas dar a oportunidade a quem vê sem qualquer problema, de se pôr na pele de quem não pode ver”, revela Simone. Mas vai mais longe: ” Jantar aqui é um movimento de sentidos. Nem os olhos vão ficar de fora. Venha conferir. A nossa equipa de cozinha é bastante criativa e vai sempre conjugar delicías no prato, que não é necessário ver para acreditar: fresco e sempre uma surpresa.”

Há eventos por descobrir, como a noite de Gospel ou até mesmo cursos de servir no escuro.

Os clientes ficam sempre encantados com a experiência. “Os feedbacks são positivos. Temos sempre alguém que nos diz, que foi dificil juntar a boca ao garfo, mas que não se come com os olhos e que é uma experiência única”, refere o responsável de comunicação.

O Blindekuh é mais que um restaurante. Nas palavras de Simone, Blindekuh é um dos maiores empregadores do sector privado, para trabalhadores com visão debilitada.” Nos nossos restaurantes e nas actividades culturais, nós criamos empregos valiosos que permitem a interacção entre pessoas visentes e deficientea visuais. E abrimos novas prespectivas para jovens e idosos. Os nossos negócios são patrocinados pela Fundação Blind-Liecht”, sublinha.

A fundação beneficente Blind-Liecht Foundation promove o diálogo e compreensão mútua entre as pessoas visentes e aqueles com visão prejudicada. Para isso, desenvolve e apoia projectos que criam empregos para cegos e deficientes visuais. A Fundação Blind-Liecht é um dos principais empregadores da Suíça para esta parte da população.
O mais importante projecto iniciado pela Fundação é o popular restaurante blindekuh no escuro, com sucursais em Zurique e Basel. A Fundação foi homenageada com inúmeros prémios internacionais por este conceito inovador.


E já há uns largos anos, Thaís Moraes revelou sem receios que ,”a verdadeira deficiência é aquela que prende o ser humano por dentro e não por fora, pois até os incapacitados de andar podem ser livres para voar.”

In Seletiva Outubro 2016

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