O novo postal dos ‘bunkers suíços‘

04Jul16

Um hotel em Airolo. Uma fábrica de queijos em Giswil. Um museu em Gothard, e aqui crescem também cogumelos. Já lá vai o tempo das ameaças dos inimigos. A época das invasões terminou há uns valentes anos, mas os vestígios permanecem. O número de abrigos nucleares é suficiente para defender toda a população do país contra qualquer ataque durante um ano. Uns foram transformados, outros estão ainda intactos, sendo considerados dignos de um roteiro turístico, com paisagens extraordinárias.

fj 9

Um oásis na montanha

La Claustra é o nome do hotel que foi transformado a partir de um dos bunkers militares. San Carlo era o nome original. Foi construído contra as potências do Eixo entre 1939-1942 e serviu como alojamento para cerca de 200 soldados.

Rainer Geissmann, responsável pelo hotel abre-nos a porta e descodifica-nos alguns segredos. “O bunker foi utilizado pela última vez em 1994 por soldados. Em 1999 foi adquirido por Jean Odermatt, um arquiteto e artista de San Carlo. Ele recebeu um financiamento militar de 800.00 chf para iniciar a transformação para o Hotel La Claustra em Airolo. Odermatt fez ainda um investimento de 8 milhões de francos. Passados cinco anos o hotel foi inaugurado no Verão de 2004”, conta. Ainda é possível observar estruturas militares, como as 134 escadas, onde temos acesso às armas, uma caverna com geradores de energia e o sistema de telefone ainda está no estado original. Vive-se uma experiência única. Construído com rochas e a 2050 metros acima do nível do mar, este alojamento dispões de 17 quartos, com casa-de-banho partilhada. Dispõe ainda de uma sauna, uma piscina exterior, que está a uso sazonalmente. O restaurante do hotel oferece especialidades suíças e bem regionais. O pequeno-almoço é servido diaramente e o jantar é servido todas as noites, sempre com seis pratos. “A maioria dos hóspedes vêm para seminários ou para experimentar um máximo de duas noites no hotel com a sensação caverna. As regras para o uso como um hotel são muito complexas e, portanto, dispendiosas (sistemas de protecção / alarme de incêndio / aquecimento / iluminação / emergência, gerador etc.)”, revela o gerente. Mas acrescenta: “Eu levo o hotel com o mínimo de pessoal, com apenas um funcionário (cozinha, serviço e limpeza dos quartos). A manutenção faço eu. Congratulamos todos os clientes com um aperitivo e uma visita guiada do bunker, por ocasião do guia, os hóspedes irão descobrir a história do bunker.” Uma noite para duas pessoas, em quarto duplo, nesta altura do ano pode rondar os 760 chf, mas tem o jantar incluído. Pode ser sempre uma nova ideia romântica para o escape de fim-de-semana.

Kristalle 2Um mundo de cristais

Gotthard tem muito por descobrir. Muito mais do que qualquer um imagina. Bem nas profundezas, nos ‘bunkers‘ podemos viver a história em primeira mão. Podemos voltar ao tempo do Metro del Sasso e deixarmo-nos encantar pelos mais belos cristais já encontrados nos Alpes. Sasso San Gottardo tem muito para mostrar.

Dr. Alfred Markwalder é o presidente do museu Sasso San Gottardo e não deixa de lado o encanto deste lugar. “ Há imensas informações interessantes sobre a localização actual dos cristais no Forte Sasso San Gottardo. Na visita, os descobridores podem encontrar um labririnto de dois quilómetros entre galerias, cavernas e poços. Além disso, há histórias curiosas sobre a descoberta dos maiores cristais de rocha do mundo”, salienta. Mas vai mais longe. “Este ano temos também passeios de aventura, onde os visitantes podem ver partes da fortaleza e não só. Uma regalia que não está disponível publicamente. O explorador precisa de pelo menos duas horas para visitar tanto a fortaleza histórica, como o mundo dos cristais,“ revela.

Os cristais de rocha são mais velhos do que o homem. Eles foram criados há mais de 18 milhões de anos, no interior da montanha, a temperaturas de 330 a 450 graus celsius. A aparência de um cristal depende de vários factores. Para além da temperatura, entre outras coisas, a pressão tem um papel bastante importante. A luz, a pureza e o poder dos cristais tem um feitiço que atrai as pessoas desde os tempos antigos. É difícil bater o tamanho, a perfeição, a transparência e o brilho destes cristais.

Este museu pode ser visitado entre 28 de Maio e 16 de Outubro de 2016, das 10h30m às 15h00m.

DSC02416Cogumelos profundos

No túnel Gotthard em Erstfeld, hoje crescem cogumelos especiais: shiitake. Quem está por trás deste cultivo é Alex Lussi. A humidade e a temperatura das rochas são as ideais para os cogumelos. Mas há uns anos foi um esconderijo militar. No meio de doze bunkers, Alex Lussi planta os seus produtos sem medos, mas ainda se lembra de como tudo começou. “ Tivemos a infra-estrutura para adaptar a ventilação de ar condicionado quente, luz, entre outros. Começámos o projeto em novembro de 2010 e os primeiros cogumelos shiitake começaram a ser colhidos em setembro de 2013”, recorda. Mas acrescenta: “É sempre difícil trazer a propriedade para uma zona militar anteriormente usada. Uma vez que leva muito tempo e paciência. No bunker nós produzimos cerca de 25.000 kg por ano, a média diária não pode ser quantificada com precisão, porque o mercado tem sempre flutuações.” Exportam para muitos restaurantes e não só. Já são conhecidos por toda a Suíça e todos os dias crescem mais um pedaço.

Höhlenlager_Giswil (1)Raclette escondida
O campo deixou de ser necessário para o exército. E agora, em Giswil, armazena-se o queijo raclette, mais precisamente a marca Seiler. Já foi premiado várias vezes como o melhor queijo suíço. Felix Schibli, gestor da fábrica contou à Seletiva alguns pormenores desta transformação. “ O exército não precisa mais deste campo, há já vários anos. A matriz (altura, comprimento, largura) de túneis foram ideais para a nossa construção. O tamanho da terra era ideal. Nós verificámos com profissionais e aconselharam a conversão num armazém de queijo. Abriram as portas para receber este projecto”, conta.

São produzidos na fábrica por dia, cerca de 500 queijos de raclette. Este número corresponde a 3.000 kg de queijo por dia. Para isto, na fábrica de lacticínios em Sarnen, são precisos 30.000 litros de leite. Só o ano passado processaram cerca de 10.000.000 milhões de litros de leite. Para atingir estes valores é preciso muitas mãos. Na fábrica de lacticínios em Sarnen trabalham oito funcionários. Já nos túneis de armazenamento de queijo em Giswil trabalham três funcionários. O gestor da fábrica desvenda um pouco do quotidiano destes trabalhadores. “O trabalho começa às 2h00 e termina às 20h00. Para este trabalho há três ou quatro turnos por dia. No processo de produção passamos pelo fornecimento de leite, processamento de leite, produção de queijo, fermentação e banho de sal. Após o banho de sal a maturação do queijo levamos para o túnel. A maturação leva uma média de cinco meses até a venda. O queijo é mantido com robôs de cuidados de queijo”, conta.

Sasso-historische-Festung-2Um pedaço de história

Esteve 30 anos no exército suíço. É coronel aposentado das forças armadas suíças, mas Werner Heeb é ainda presidente da FORT, uma estrutura organizacional com aproximadamente 55 organizações independentes onde estão incluídos bunkers e fortalezas. Para nós, foi um autêntico contador de histórias. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Suíça tinha uma rede de cerca de 8.000 bunkers e abrigos militares. Com os altos custos de manutenção e uma ameaça de arrefecimento da invasão, a partir dos anos 90, o exército suíço teve como tarefa diminuir este número de abrigos.

Werner revela um pouco dos tempos antigos. “Havia mais de 30.000 objetos militares, que usaram no exército. Da trincheira à fortificação complexa ou ao aeródromo que protegia algumas centenas de pessoas. Os altos custos de operação e manutenção com o inimigo levaram a um novo pensamento. Os sistemas de armas antigas necessitavam de muita infra-estrutura , de espaço e sobretudo muito operadores. Hoje requerem muito menos pessoal, porque os sistemas são computadorizados e automáticos”, explica.

Pode parecer excentricidade, mas os bunkers e outras fortalezas ocupam um lugar especial na história suíça.

Depois de a Alemanha invadir a França em 1940, a Suíça foi cercada e reconheceu que estaria à espera de qualquer ataque ou uma invasão. A Suíça preparou-se para dificultar este. Segundo o plano, chamado de ‘Redoubt Nacional’, com muita mão- de- obra e poder de fogo do país fizeram um abrigo ( Bunker ) na montanha onde se podiam esconder dos agressores estrangeiros. “Descrever um dia num bunker é difícil porque cada dia é distinto e cada depósito tem algo de especial. O bunker é para proteger o próprio sangue e tentarmo-nos salvar, porque Hitler queria destruir tudo e prender muitas pessoas. O prémio para derrotar a suiça devia de ser muito alto. A história e o tempo mostrou que esta estratégia foi bem sucedida, uma vez que Hitler usou as forças necessárias para o ataque à Suíça e que a guerra das duas frentes não teria mais capacidades nem forças para atacar. Vimos o desenvolvimento e os planos de ataque mais tarde”, recorda o antigo militar.

A construção dos bunkers suíços sempre foi lendária e especial.É importante que o inimigo não saiba onde uma fortaleza é ou o que faz. Isto significava que tudo deve ser bem camuflado, desde a construção à operação, pois tudo era secreto. Mas há também grandes hospitais ou fortalezas de batalha. Para que possamos vencer a luta tardia. As nossas pontes, túneis, aeroportos, barragens estavam cheios de dinamite para eles soprarem, se necessário, para que o adversário tenha um grande problema. Sozinho poderia ficar o dia todo a falar daquela altura“, deixa-se levar.

Hoje, é difícil um visitante sair para uma caminhada sem passar por uma porta curiosa na encosta da montanha, que parece um acesso à Batcaverna, ou um falso chalé suíço, com persianas trompe l’oeil. Durante alguns anos, a Suíça ostentou, orgulhosamente, a marca de possuir o maior projeto da proteção civil em todo o mundo: No túnel de Sonnenberg, em Lucerna, era possível abrigar até 20.000 pessoas. Nos sete níveis acima do túnel, inaugurado em 1976, havia um hospital, um teatro operacional, um estúdio de rádio, um centro de comando … Entretanto, essa infra-estrutura, abandonada em 2006, era deficiente sob vários aspectos. As portas, por exemplo, tinham 1,5 metros de espessura e pesavam 350 mil quilos, mas não fechavam hermeticamente.
DSC02421
São apenas alguns dos projectos que foram recriados através de bunkers. As características tornaram-se eficazes nas novas vidas destes alojamentos. Têm uma nova cara, novos desafios, mas nunca o passado será esquecido e haverá sempre uma história para contar. Em tempos, Isabel Allende dizia que: “A guerra é a obra de arte dos militares, a coroação da sua formação, a insígnia dourada da sua profissão.

In Seletiva, Junho 2016



No Responses Yet to “O novo postal dos ‘bunkers suíços‘”

  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: