“Porque a cor é para todos”

28Set15

Feelipa Cores Secundárias“A verdadeira beleza não está naquilo que vemos, mas sim naquilo que sentimos”, já dizia Clarice Lispector. Os obstáculos para uma vida normal são mais que uma mão cheia. As ajudas chegam regularmente mas há ainda muito para fazer, por estes seres iguais a todos nós, mas com uma pequena diferença. Mesmo com os recursos tecnológicos, ainda são grandes as dificuldade. As escolas básicas não são preparadas para ensinar alunos que apresentam problemas sérios de visão. A maioria dos professores não tem formação adequada para desenvolver um bom trabalho, ficando os alunos a mercê das entidades especializadas.

Já todos sabemos que quando perdemos um sentido, passamos a usar mais os outros e por ser necessário, aguçamos os que nos restaram.

O Feelipa Color Code surgiu na sequência do mestrado em Design de Produto, e com a necessidade que Filipa tinha de criar algo novo. Mas não lhe fazia sentido criar algo que apenas fosse saturar mais o mercado, não queria que fosse mais um produto ou serviço. Outro dos motivos que lhe levou a desenvolver o projeto, foi o facto de ter a ambição de trabalhar com e para crianças, e esta foi uma ótima oportunidade de fazer isso. No fundo, crianças que realmente precisassem de algo que não existisse. Como já tinha experiência em lidar com pessoas com deficiência visual, por ter pessoas próximas de família com essa condicionante, escolheu trabalhar com crianças com deficiência visual, e foi uma excelente experiência. Acabou por fazer uma parceria com o Centro Helen Keller, em Lisboa, no qual teve a possibilidade de conviver com alunos com deficiência visual (baixa visão ou cegos) do 3º e 4º anos de escolaridade, ou seja 8 a 10 anos de idade. Convivendo com os alunos dentro e fora da sala de aula, percebendo a sua dinâmica com os colegas e professores, observando as suas conquistas e limitações. Foi com base nesta vivência e observação que percebeu que as cores adquirem grande importância para estas crianças quando inseridas numa sociedade onde a cor é um elemento identificativo e diferenciador.

Segundo a criadora Filipa Pires, o Código de Cor Feelipa foi construído com o intuito de permitir uma correcta identificação das cores, nos inúmeros objetos do dia a dia, às pessoas com deficiência visual, sejam pessoas cegas, daltónicas, com cataratas, glaucoma ou baixa visão. A cor adquire importância no momento em que estas estão inseridas numa sociedade toda ela pautada de cor e, uma vez que não conseguem fazer a sua parcial ou total apreensão, podem sentir-se excluídas ou demasiado dependentes de terceiros. Pretende-se uma maior equidade, inclusão, responsabilidade social e autonomia das pessoas com deficiência visual. O verdadeiro sentido da cidadania.

Em breves palavras, Filipa Nogueira Pires, CEO deste código, explica esta nova descoberta. “Este código baseia-se na associação das formas geométricas quadrado, triângulo e círculo, às cores vermelho, amarelo e azul, respetivamente. Estas são as cores primárias do código. As cores secundárias do código — verde, laranja e roxo — são resultantes da fusão de duas cores primárias, através da aglutinação direta das respetivas formas primárias que estão na base da sua formação, fazendo do código um sistema lógico. Por exemplo, juntando o quadrado e o triângulo, ou seja, o vermelho e o amarelo, respetivamente, obtém-se o laranja”, afirma. Mas vai mais longe: “As cores preto, cinzento e branco são representadas por linhas paralelas, com espessura suficiente para o reconhecimento visual e táctil das mesmas. O preto é identificado com três linhas, o cinzento com duas e o branco com apenas uma linha. De forma a se obterem os tons claros, recorre-se às formas geométricas da cor base e à linha que representa a cor branca.” E dá como exemplo: “o azul claro é representado pelo círculo com uma linha no seu exterior. Para os tons escuros, as linhas que representam o preto, são introduzidas dentro da forma geométrica da cor base. Por exemplo, o vermelho escuro é representado por um quadrado com três linhas no seu interior.”Hand Touching Color Code Board

Neste momento existem já dois produtos disponíveis ao público, na loja online. Um baralho de cartas de aprendizagem, que apresenta todas as formas coloridas em alto relevo e o nome de cada cor em Braille e a negro. De uma forma divertida e lúdica, torna mais dinâmica a aprendizagem. Há ainda um conjunto de 24 etiquetas autocolantes com relevo, possíveis de serem aplicadas em diferentes superfícies e materiais. Elas facilitam a identificação de diferentes objetos como uma peça de roupa, um caderno, um contentor de comida, entre muitos outros objetos onde a cor é um elemento diferenciador.

A dificuldade de colocação profissional com relação ao deficiente visual é agravada pela infundada crença da maioria dos empregadores ao considerarem que a deficiência afeta todas as funções do indivíduo. Além disso, desconhecendo as diversas atividades possíveis de serem realizadas pelo deficiente, receiam dificuldades de integração com o grupo de trabalho, temem a ocorrência de acidentes e preocupam-se com o custo de adaptações e aquisição de equipamentos especiais. Outro fator primordial é a falta de qualificação profissional de considerável número de deficientes visuais, ocasionada pela ausência de ações voltadas para a preparação profissional dos deficientes, e pela dificuldade de acesso dos mesmos aos cursos existentes.

O Feelipa é um código de cor para todas as pessoas. O processo de emancipação da pessoa cega é, de fato, hárduo e cheio de obstáculos. Segundo dados oficiais da OMS, no mundo existem 285 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência visual. Dessas, 39 mil pessoas são cegas, e as outras 246 mil sofrem severas limitações visuais. Este número poderá duplicar até 2020, estimando-se que a cada 5 segundos, uma pessoa torna-se cega no mundo. “Ainda que não consigamos mudar estes números, a nossa missão é contribuir para melhorar significativamente a vida destas pessoas. Queremos facilitar a inclusão social de pessoas com deficiência visual, respeitando as necessidades individuais e sociais, por meio da apreensão, conhecimento e reconhecimento das cores através do Código de Cor Feelipa, conferindo maior autonomia, de uma forma eficiente e inclusiva, através de um design socialmente responsável” foca Filipa. E apenas conclui: “Porque a cor é para todos.”

In Seletiva, Setembro 2015

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