Antíteses na Saúde

04Set15

O sol já nasce e o calor já se faz notar. São sete horas e Mafalda Ribeiro já se faz à estrada para mais um dia de trabalho no Hospital de Morges. Entre o volante e o pé no acelarador, no lugar do pendura, há uma caneca de chá para começar bem o dia. Nascida em terras ribatejanas, veio para a Suíça há cerca de seis anos. É licenciada em fisioterapia pela Escola Superior da Saúde Egas Moniz, mas agora trabalha em terras helvéticas. Nos corredores, diariamente veste umas calças brancas, uma t-shirt azul e anda sempre com um passo acelarado. “Começo a trabalhar às 8 horas no hospital. Normalmente inicio com parte administrativa e organização do dia, outras vezes tenho logo pacientes a essa hora. Depois os dias nunca são iguais. Depende do tipo e quantidade de pacientes, se há urgências ou complicações, reuniões e formações internas”, conta com uma chávena de café ao lado.

No sector da saúde, a jovem ribatejana consegue enumerar várias diferenças entre Portugal e a Suíça. “Aqui o fisioterapeuta é um fisioterapeuta, não é o massagista. O que é extraordinário é que somos tratados como pessoas com cérebro e com inteligência, para sermos autónomos na nossa prática clínica. Existe um respeito e uma comunicação entre as equipas multidisciplinares fantástico. Aqui ninguém é mais que ninguém, somos todos colegas de trabalho, cada um especializado na sua respectiva área”, realça. “E sim, também me refiro aos médicos, que não têm qualquer tipo de pudor em perguntarem ao fisioterapeuta, ao enfermeiro ou outro profissional de saúde a sua opinião para tomadas de decisões importantes na saúde dos nossos doentes. Aqui ninguém quer fazer o trabalho do vizinho. Cada macaco no seu galho. Acho que a isso chamamos respeito e competência. Portugal ainda tem que aprender algumas coisas. Por outro lado somos muito bem formados em saúde no nosso país. Há muita gente com garra para a saúde”, acrescenta orgulhosa. Diariamente passam pelas mãos da jovem, pacientes com patologias do foro cardio-respiratório em estado crítico. Mas há dias, que varia um pouco. “De qualquer forma, o paciente tem que ser sempre visto como um todo. Tratamos pessoas não uma parte do seu corpo”, sublinha com ênfase.

Paysage, Inauguration, Hélistation, hélicoptèreNasceu na Ericeira e formou-se em Lisboa pela Faculdade de Medicina. André Rocha, já abandonou Portugal há mais de um ano e hoje é médico interno de Medicina Interna (Urgência, Cuidados Intensivos, SMUR e enfermaria) no Hospital de Morges. Não foi o problema de empregabilidade que o moveu até Genebra. “Decidi emigrar para poder fazer a minha formação/especialidade em Medicina Intensiva, uma área médica que está muito bem consolidada na Suiça, com um óptimo programa de formação. Em Portugal não existe um programa semelhante”, confessa. “Aqui o emprego médico é um mercado mais livre. Os contratos com os médicos internos duram por vezes apenas alguns meses e no máximo dois anos. Em Portugal a formação assegura imediatamente um contrato de cinco ou seis anos mas no final a empregabilidade é mais reduzida”, alonga. O quotidiano deste jovem varia muito. Por vezes, faz serviço extra-hospitalar e passa o dia ou noite em ambulâncias. “Nem todas as pessoas sabem o que é medicina Interna, onde trabalho. Eu observo pacientes com todo o tipo de doenças cardíacas, pulmonares e intestinais. Mas também vejo problemas de fígado, de sangue ou de pele. E até analiso doenças neurológicas, problemas reumatismais e endocrinológicos. Há quem diga que a Medicina Interna (onde trabalho) é a mãe de todas as especialidades. Mas não pensem, que sei fazer tudo, nem pensar! Não opero pessoas, não trato crianças, não percebo nada de Ginecologia ou Ortopedia. O meu trabalho, de modo simplista, é como se fosse um médico generalista em meio hospitalar”, esclarece. Em outras situações, vê pessoas hospitalizadas e ainda outros casos menos graves, nas urgências. No fundo, é um misto de Anatomia de Grey e Dr. House, mas na vida real. Lida com a vida e a morte todos os dias. E há dias que ficam marcados. “Infelizmente não somos capazes de salvar todos. Há momentos em que nos apercebemos que a vida é frágil e a medicina pode muito pouco. Nunca vou esquecer um jovem português de 43 anos, a viver aqui a Suiça, com quem apenas troquei três palavras antes de uma paragem cardíaca repentina que lhe custou a vida. Nunca julguei que tinha uma profissão fácil, mas quando “nos toca na pele” é um sofrimento enorme. É uma profissão de vidas e de mortes, de momentos lindíssimos mas com épisódios também cinzentos”, recorda.

Como qualquer aprendiz de uma nova língua, Mafalda também já teve momentos engraçados por má percepção da palavra. “Uma vez em plena reunião multidisciplinar, a enfermeira teimava em dizer que quase todos os pacientes tinham ‘constipation’ e eu que continuava a ouvir aquilo pensei para mim “a colega não está boa da cabeça. Caramba. Ela diz que estão todos constipados, mas não estão. O problema é que “constipation” é obstipação intestinal. Quando percebi partilhei logo com os colegas e foi uma risota fantástica”, relembra às gargalhadas.

Mas André Rocha também teve um episódio caricato. “Estando eu habituado ao francês de França, não conhecia este dialecto Vaudois de ‘dinner’ e ‘souper’ para comer, respectivamente, ao meio-dia e à noite. Uma vez tinha uma velhota de 90 anos a meu cargo e quando ela me diz ‘je vais dinner’ ao meio dia, de imediato a tomei por demente. No final de contas ela tinha idade para começar a ficar “xéxé”. Prontamente a corrigi ‘madame, je crois que vous allez déjeuner’, e ela insiste que ia jantar ao meio-dia! Pior, a colega de quarto, uma outra nonagenária, começa a defender a colega e também à segunda a tomei por demente. Em cólera quase contra as duas velhíssimas senhoras, deixei-as ganhar e disse “façam como quiserem, mas que eu saiba ao meio dia é hora de almoço”, partilha animado.

120925_2411Muitos dos que chegam à Suíça têm o choque, de terem de pagar um ‘seguro’ de saúde, todos os meses. “Como tudo tem
coisas positivas e negativas. Aqui a saúde é mais cara, mas ao mesmo tempo não existem listas de espera como em Portugal e os doentes são muito bem acompanhados. Em Portugal a saúde é baratíssima em relação à Suiça. Acho que os portugueses também estão mal habituados. Reclamam muitas vezes sem saber o que se passa noutras partes do mundo. Quanto aos cuidados de saúde em si, acho que são idênticos. De qualquer forma isso vai sempre depender do profissional e da instituição e não do país! Actos heróicos e fracassos na saúde existem em todo o mundo. Inevitável. Afinal somos simples humanos”, comenta a fisioterapeuta. Já o médico interno André também sustenta esta ideia. “
O sistema em si é muito diferente. As pessoas são menos abusadoras, porque tudo se paga e tudo se factura. Há mais consciência financeira na saúde mas também há mais recursos. As pessoas na Suiça são também muito mais impositivas e requerem dos médicos um serviço muito transparente. Em Portugal os médicos são mais paternalistas e emotivos. Somos um povo quente de sangue e de alma, e isso vê-se na vida de todos os dias.”, refere. Mas vai mais longe: “Acho que torna tudo mais sustentável. As pessoas em Portugal acham que se desconta que chegue e que sobre, mas não sabem que uma ida às Urgências custa várias centenas de euros e uma pequena operação, vários milhares.”

Qualquer emigrante já passou por algum momento menos apropriado, no que toca à nacionalidade. “Um dia, um paciente perguntou-me a minha nacionalidade ao qual eu respondi cheia de orgulho que era portuguesa. De seguida pergunta-me onde tinha eu feito os meus estudos de fisioterapia. Ao qual eu respondi que tinha feito em Portugal. E a próxima pergunta do senhor qual foi? Existem faculdades em Portugal? Fiquei triste com a imagem que tinham do meu País, mas logo de seguida, ergui a cabeça e com um simples olhar tentei dizer-lhe que a ignorância afinal não tem limites, mesmo num país considerado desenvolvido”, lembra. Quanto ao futuro, tudo está em aberto, mas neste momento Mafalda tem uma lição de vida: “Não me sinto vencedora, mas sim realizada.”

By Susana Cruto, Seletiva Magazine Setembro 2015



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