ZECA, o robot para apoiar no autismo

29Maio15

expZeca

 

 Já há mais um robot para ajudar as crianças com o espectro do austimo. Zeca é um robô humanoide que possui vários sensores e atuadores que, depois de programado, permite desempenhar diversas atividades. Entre outras funcionalidades, possui um polímero especial na cara que o permite simular expressões de medo, tristeza, alegria, entre outras.

Este robot desenvolvido pela Universidade do Minho, quer ajudar crianças autistas na sua interacção social. Chama-se ‘Zeca’, sigla para a expressão inglesa “Zeno Engaging Children with Autism”. O Zeno é um robô comercial desenvolvido e comercializado pela Robokind. Dado os objetivos de investigação definidos (trabalhar emoções com crianças com PEA), e da pesquisa que realizamos, a Universidade do Minho elegeu este robô como o mais adequado.

Para muitos é estranho compreender como um robot pode fazer sentir algo. Mas a professora Filomena Soares explica sem hesitar. “A cara é revestida com um polímero, e no seu interior possui uma série de motores o que permite simular expressões de alegria, medo, entre outras”, esclarece. E vai mais longe. “Segundo os critérios atuais explicitados no DSM( Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, 5 edição) , as PEA(Perturbações do espectro do autismo) são caraterizadas por alterações na comunicação social e por padrões de comportamento, atividades ou interesses restritos e repetitivos. As alterações ao nível da comunicação social nas crianças traduzem-se, na maioria das vezes, por dificuldades em reagir a estímulos sociais, Zecaem imitar comportamentos, em reconhecer e compreender estados mentais em si mesmas e nos outros. Estas alterações influenciam claramente a adaptação da criança com esta diferença, aos seus contextos naturais comummente com implicações no seu desenvolvimento cognitivo, linguístico e emocional. A investigação sobre a interação humano-robô tem demostrado que os robôs melhoram o nível de resposta, de envolvimento e de interesse nas crianças com PEA e promovem novos comportamentos sociais.

Investigou sem medos e pôs à prova este novo brinquedo. Sandra Costa faz parte deste projecto e lembra-se como correu o teste. “Trabalhar com o ZECA e com as crianças com perturbações do espectro do autismo foi uma experiência inspiradora. Primeiro, porque foi possível colocar a technologia ao serviço do ser humano e segundo porque consegui influenciar esse processo com a aprendizagem que tenho vindo a fazer nos últimos anos”, conta. Mas entusiasma-se. “As crianças estiveram verdadeiramente envolvidas no processo de aprendizagem e interação social, e foi interessante verificar como algumas das crianças utilizam o robô para interagir comigo, que no final de conta é o principal objetivo: interação humano-humano. Espero que os resultados obtidos neste projeto dêem continuidade a mais estudos sobre a utilização da robótica como mediadora de interações sociais e que principalmente estas crianças possam ganhar mais qualidade de vida com isso”, acrescenta.

É sempre um risco, colocar um robot nas mãos de uma criança. Mas este é um perigo que pode ser positivo. Contudo, as crianças com esta diferença podem vê-lo apenas como um brinquedo. A psicóloga Maria de Fátima Moreira faz parte da APPACDM (associação portuguesa de pais e amigos do cidadão deficiente mental) e acompanhou o projecto de investigação, desde o início. E tem resposta para este alerta. “Subjacente a qualquer intervenção de natureza educativa, a motivação para a tarefa ou atividade é sempre um fator de grande importância. Quando pensamos no robôt, pensamos também a esse nível, como elemento suficientemente actrativo para levar a criança ou jovem a interessar-se, envolver-se na atividade de tarefa propostas”, sublinha.

Rui começou a aperceber -se das diferenças do filho nas aulas de natação para recém-nascidos. Procuro uma pediatra que, depois de observar Gabriel, fez o prognóstico: “macaquinhos” na cabeça dos pais. A família não desistiu, e todas as buscas na internet resultavam sempre na mesma problemática, autismo. O inevitável acabou mesmo por surgir, e foi diagnosticado a Gabriel o Espectro do Autismo.

Pedro Caldeira da Silva é pedopsiquiatra no Centro Hospitalar de Lisboa Central e tem uma palavra dizer sobre as emoções destas crianças. “Todas as crianças são diferentes; é preciso conhecê-las. E evitar ideias estereotipadas. O autismo não define a pessoa. Ela é muito mais do que a doença, ou incapacidade”, refere. Mas acrescenta: “Há crianças cuja expressão emocional é muito plana e discreta, traduzindo-se apenas por ligeiras alterações da mímica ou da actividade, ou do olhar; outras podem ter explosões de angústia sem causa aparente; outras mostram aparentes expressões emocionais contrtaditórias com o esperado para a situação; umas acalmam-se rapidamente, outras têm crises prolongadas.”  As portas do consultório são fechadas e as conversas ficam entre as paredes. Mas há uma história que partilha. “Esta situação vem-me à cabeça frequentemente. Tem a ver com as espectativas dos profissionais em relação à doença: um rapaz que recebeu o diagnóstico de autismo aos dois anos e que eu acompanhei com muito boa evolução. Quando os pais foram à consulta de vigilância de pediatria do desenvolvimento onde lhe tinha sido feito o diagnóstico, ouviram este comentário surpreendente e ilustrativo: “ele está melhor; mas está aqui escrito que ele tem autismo e, uma vez autista,autista para sempre…” As espectativas influenciam o prognóstico,” relata.

Filho é filho e há mais momentos bons para ultrapassar os mais complicados e Rui consegue-se lembrar de um especial. “Posso recordar uma história, que hoje sei a razão mas na altura não passava de um mistério. Ainda ele era recém-nascido. No caminho para casa parávamos nas bombas de gasolina para beber café. No dia que, por algum motivo não parámos era uma berraria. Era incrível. Hoje sabemos que são rotinas, que eles tanto gostam. Atenção, ele na altura tinha meses”, relembra.

Uma luz para o futuro

O futuro incerto das suas crias é o maior receio destes pais. Rui não esconde o receio. “Pensar na minha morte, nunca tive medo dela. Hoje tenho, porque sinto que quando morrer o que irá acontecer com o meu filhote e com o seu futuro”, reflecte. Mas a Microsoft tem um novo projecto para estas pessoas e conta com a ajuda da Specialisterne. O conceito Specialisterne para empregar indivíduos com autismo e desafios semelhantes foi desenvolvido por Thorkil Sonne na Dinamarca mais de 10 anos atrás. Thorkil criou uma empresa de consultoria, escola profissional, e uma fundação para promover o emprego para os indivíduos com autismo. A Specialisterne tem vindo a trabalhar com grandes corporações como a SAP, a Towers Watson, HP Austrália, e outros para aumentar as taxas de participação dos indivíduos com autismoe desafios semelhantes. Esta companhia estabeleceu uma meta global para permitir o emprego de 1 milhão de indivíduos com IMG_7794autismo e desafios semelhantes.

Mark Grein, director da Specialisterne , companhia que acompanha este novo projecto explica melhor esta recente ideia.A Microsoft, é claro, sempre teve um forte histórico de diversidade de emprego incluindo aqueles com deficiência. Ainda assim, a liderança da Microsoft foi inspirada pelo sucesso de outras empresas, para colocar um foco adicional na contratação de indivíduos com autismo. Estes indivíduos têm uma paixão por detalhes, fortes habilidades de reconhecimento de padrões, resistência para tarefas repetitivas, e um olho afiado para qualidade. A Microsof fez uma parceria com Specialisterne EUA nesta fase inicial”, refere. E acrescenta: “Durante o projeto piloto inicial, os candidatos terão a oportunidade de trabalhar como os desenvolvedores de software, técnicos de laboratório e engenheiros de patentes. Estas são posições de tempo integral no estado de Washington a fim de ser obter a contratação em junho de 2015.”

E com a conversa a chegar ao fim, Rui deixa-se levar entre risos.”Ter um filho autista, é ter todos os dias histórias e conquistas novas. Mas o autismo é um mundo diferente. Muitas das vezes bem melhor que o nosso…garantidamente”, declara.

In Seletiva, Maio 2015
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