Uma colher de sopa de emoções

23Dez14

O advento já chegou e com ele trouxe muita vontade em ajudar. Os voluntários do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) percorrem todas as noites, as ruas da capital. Há cerca de 700 sem abrigo que se aconchegam todas as noites, na calçada lisboeta.

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São cerca de 500 voluntários que, quando o sol se põe preparam-se para distribuir uma refeição saudável a quem todos os dias vive ao relento.

A delegação de Lisboa do CASA está a cargo de Nuno Jardim que conta com uma vasta equipa de voluntários que todas as noites alimenta quem mais precisa. Segundo ele, o CASA surgiu pela vontade de um grupo de pessoas, inspiradas pela intenção do Dalai Lama e Tulku Pema Wangyal Rinpoche, em ajudar os mais desfavorecidos, com uma intenção verdadeiramente altruísta. “Os voluntário, devem acima de tudo ter vontade para ajudar, para fazer a diferença e colaborar sempre numa visão altruísta e de cooperação entre todos.Existem voluntários de várias vertentes. O maior número é para integrar equipas de rua, que distribuem alimentos e outros bens de primeira necessidade. Existem ainda voluntários de cozinha, outros de recolhas de alimentos e ainda voluntários para tarefas de apoio à gestão diária do centro”, caracteriza o director da zona da capital. O CASA ajuda também no encaminhamento para outras respostas mais adequadas às necessidades do utente, no apoio à procura de emprego e dentista. Os sem abrigo na sua maioria recebem alimentos confeccionados na rua bem como roupa. Quem se desloca às carrinhas de rua ou aos locais CASA são famílias carenciadas, que recebem alimentos e roupa. A roupa é distribuída de acordo com os pedidos efectuados. No que toca à distribuição nocturna há uma certa organização. “Diariamente existem entre dois a três grupos de voluntários, com uma coordenação própria para agilizar tudo na vertente da confecção, embalagem e distribuição de refeições. Existem também equipas para organização de roupa e distribuição na sede, com utentes que se deslocam para as recolher. O Coordenador assume o papel essencial de garantir a distribuição e/ou o apoio necessário”, explica Nuno Jardim.IMG_5021

Paula Cascais é gerente do restaurante vegetariano Bem me quer em Lisboa e também colabora com o CASA há três anos, organizando campanhas de sensibilização e de recolha de alimentos. “Já organizamos recolha de ingredientes para “sopa na sopa” – cada um trazia o que podia e juntos descascávamos e confeccionava- se a sopa quentinha que íamos distribuir em conjunto com o CASA, na Igreja de Arroios e no campo das cebolas . Fizemos workshops de cozinha onde tinha de ser pago em alimentos não perecíveis e a troca de chávena de chocolate quente por saco de roupa usada . Todas as campanhas foram um sucesso e permitiu a recolha de muitos bens convertíveis em apoio aos sem abrigo . Fazemos tambem a troca de brinquedos usados por brincadeiras novas”, conta. Faculta sempre comida vegetariana e sopa. Sabe que por vezes há sem abrigos que reclamam da comida ou até mesmo de roupa, mas para essas situações Paula sublinha: “Considero que todos os voluntários que abraçam estas causas dão o melhor de si mesmos – o fácil seria ficar em casa no quentinho ou ir ao cinema. Felizmente existem pessoas fantásticas, que fazem a diferença e provocam a alteração de mentalidade e abrem caminho a novas perspectivas. Porém, nem sempre estas acções são vistas com bons olhos – ser paternalista e aceitar as exigências de quem precisa, não vai mudar a condição a que chegaram os sem abrigo. Ensinar a “pescar” muda tudo – mas raros são os que realmente querem aprender.”IMG_5008


A preparação da ementa

O Pingo Doce e o El Corte de Inglês fornecem os alimentos, mas às quartas-feiras os voluntários vão buscar bolos à pastelaria Broa de Mel em Benfica e Talismã.

Na cozinha do CASA começa-se a trabalhar por volta das 14h30m. Há 500 refeições para preparar e cerca de oito pessoas para ajudar na confecão. Há um cozinheiro que tem a quarta-feira de descanso e desloca-se até lá. Vê o que há disponível para preparar uma refeição bem apetitosa. Patrícia Vieira tem 31 anos, veio de Leiria e já colabora desde 2009, com a cozinha no centro e não só. “Depois de me mudar para Lisboa, decidi que deveria dar um pouco do meu tempo a quem mais necessitava. Passeava pela cidade e não me era indiferente aquelas pessoas com tão pouco e ainda assim me sorriam”, confessa. Coze-se o arroz ou a massa. Tempera-se a carne e deixa-se cozinhar. Corta-se os legumes e prepara-se o molho.Entre tachos e panelas, relata a preparação das refeições. “O objectivo é existir o mínimo de desperdício, no entanto pode variar. Já levamos salmão, e outros peixes. Após a preparação da comida quente, é hora de preparar as couverts. A comida é embalada em recipientes próprios. Estas embalagens são colocadas de forma adequada em caixas de esferovite de forma a manter a refeição quente. Ao mesmo tempo são preparados os sumos e o chá para os voluntários levarem. São ainda preparados sacos de pao e bolos frescos doados pelas várias padarias. Há também quem lave a loiça e deixe tudo limpo”, conta. João Paulo Nogueira também participa nas equipas de quarta-feira. Sempre fui um cidadão consciente de pertença a uma sociedade, à qual não posso ficar alheio. Por isso, neste contexto de crescente dificuldade, não apenas dos “clássicos” sem abrigo, mas também de muitas famílias, decidi que não poderia continuar sem nada fazer e, com a consciência de que é uma gota no Oceano, decidi começar a participar no voluntariado. Comecei há cerca de nove meses”, confessa. E vai mais longe. “ É um trabalho de equipa que passa por ter voluntários a cortar cebola, a descascar legumes, a preparar os ingredientes necessário à confeção da refeição e a preparar as 500 refeições que são distribuídas. IMG_5015Á quarta-feira temos a ajuda fantástica e desinteressada de um verdadeiro Chef, que trabalha num reputado Hotel em Sintra, que é o Frederico Francisco que, quando pode estar presente, lidera este trabalho de equipa”, relata. Mas acrescenta: “ Com o apoio qualificado do Frederico Francisco conseguimos variar muito nas refeições preparadas à quarta-feira: desde feijoada até uma massada de atum, tentamos sempre conseguir dar uma refeição que não seja apenas quente, mas consiga transmitir aos sem abrigo e às pessoas em dificuldade a quem tentamos ajudar – e de quem tanto recebemos – que estas refeições são preparadas com carinho e amor, e plena solidariedade para com elas.” Os rostos que se encontram são cheios de fome e sede. São 21 horas. É hora de nos pôrmos a caminho. Depois de tudo preparado chegam as equipas que seguem para a rua em viaturas próprias, que vão distribuir os alimentos. Separam-se e despedem-se com um ‘boa volta’ bem vincado. E a carregar o veículo com as marmitas, com um sorriso contagiante, Patrícia revela: “O mais gratificante é saber que aquela pessoa que acompanhei meses na rua já não está lá porque conseguiu seguir com a sua vida em frente. Mas também confesso que uma das maiores dificuldades é chegarmos ao coração destas pessoas.”

IMG_5025A ronda

Já veste a pele de voluntária há alguns meses, mas Ana Ranito ainda se lembra de como tudo começou. “A primeira vez da ronda é sempre um momento marcante! Eu já tive ‘duas primeiras vezes’ . Quando fiz a primeira volta na Av. da Liberdade, e a primeira vez que fiz o caminho do Cais do Sodré. Nesmo depois de já fazer a outra volta a algum tempo, esta também me marcou bastante. Numa noite apercebi-me que sou uma sortuda uma abençoada pois ao final do dia tenho um lar quente onde ficar, um chuveiro com água quente, bens básicos que muitos não têm acesso”, recorda. Mas vai mais longe: “Marcou – me o facto de distribuirmos comida a pessoas em locais onde passamos frequentemente e sem nunca reparar que estão ali pessoas como nós mas com percursos de vida diferentes. Tocou –me também um poema que me fizeram na primeira noite que me deixou com uma lágrima no olho. Qualquer uma das rondas tem pessoas que me marcam, desde o casal apaixonado que vive na Av. Liberdade, ao rapaz que arruma carros e canta canções para os elementos da casa, à Sra. cujo acesso à rua no prédio onde mora é complicado e nos ‘atira’ o saco pela janela para o enchermos com refeições.”

O perigo pode estar à espreita, mas é preciso ter postura para superar diversas situações. Há quem se exalte um pouco, por querer mais que uma refeição e há quem dipreze o pão ou até mesmo a doce sobremesa. Há quem exija mais comida, reclame por ser sempre idêntica e há quem agradeça com todos os sorrisos. São rostos distintos, cheios de sofrimento, cobertos pela fome e o imenso frio neste Inverno gelado. Animação não falta em algumas zonas e há quem pare para cantar para os que todas as semanas distribuiem o jantar. Um rap composto por versos verdadeiros e bem lembrados alegra-nos os rostos.

Ana vai ao volante e já consegue fazer um traço da noite alfacinha. “As rondas por Lisboa nunca são iguais! O que têm de comum são os pontos onde se efectuam as paragens. Depois , cada semana é uma semana em cada ronda. O normal é a distribuição de alimentos em cada ponto, e dois dedos de conversa. No entanto, os momentos variam consoante quem nos espera. Existe ainda um expirito de camaradagem e partilha entre os voluntários que deposi de cada voltam partilham as experiencias nas redes sociais, e uma vez por mês, a volta de uma mesa! Esta é a essência da rondas”, refere. E acrescenta: “Todos podemos ser voluntários, basta crer. Podia ser assim linear. No entanto, não o é, na minha opinião, pois é necessário existir um espirito de crer, de vontade de ajudar os outros de compromisso com esta causa e não ir apenas uma vez. É preciso encarar o voluntariado como parte dos nossos dias e depois ter espírito para ir para a rua e encontrar um pouco de tudo.”

IMG_5026E vê-se de tudo por um saco de comida. Perto da Igreja de Todos os Santos, uma senhora com uma longa família, mora no terceiro andar. E precisa de alimentar crianças e a si própria. A CASA não sobe o prédio, mas a honesta senhora faz descer um cuidadoso saco, para colocar a ementa. E com o mesmo cordão, que faz descer a sacola puxa para cima, o reforço alimentar para a noite de hoje.

A condutora já se deparou com momentos bastante caricatos e não tem constragimento em contar. “Deste pouco tempo de voluntariado recordo algumas histórias que me marcaram, como logo na primeira volta que fiz um poema que me foi dedicado e deixou com lagrima no olho, o agradecimento por um copo de chá como “o melhor cá de sempre”, a oferta de umas conchas por parte de um sem-abrigo. Isto ao nível emocional. Já aconteceu estar na volta com a minha mãe e ter um sem abrigo a chamar-lhe mãe também porque não tem mãe e chamar-me irmã. Outro historia engraçada veio da Bela a sem-abrigo da Av.da Liberdade, que apos algum tempo da minha ausência, perguntou porque e sabendo a razão da minha ausência, operação do meu pai, manda sempre cumprimentos para ele”, revela. Mas há momentos menos felizes que se recorda. “ Existe sempre alguma revolta quando a comida não é suficiente, quando mesmo quem está na rua não consegue perceber que fazemos o nosso melhor com o que temos e sem ganhar nada, em termos monetários por este ‘trabalho’. Mas prefiro lembrar os bons momentos que tenho passado! Quando termino uma volta fico contente quando a comida chega para todos e todos ficam satisfeitos. Nem sempre é assim, mas os “obrigada” que recebemos superam os momentos menos bons que passamos. Aquele sorrisso de alguém que não comeu nada ainda é sem duvida o melhor”, sublinha.

A rota chega ao fim, com duas refeições por oferecer. Quem disprezou a comida por orgulho, ofereceu-a sem se aperceber a quem também precisa.

São 23 horas e o estômago já pede algo bem quente. Um caldo verde para aconchegar.

IMG_5023Coincidencias não há, afinal de contas existe uma razão para tudo. Cabe a nós descobrir esse sentido com o nosso olhar atento.A sensação de percorrer as ruas do Cais do Sodré, com paragens especificas e bondosas é inexplicável e por mais palavras que tentemos encontrar para tal descricao, nunca haveremos de descobrir as mais acertadas. É muito mais que uma viagem de carro, uma volta pelo bairro alto com marmitas para oferecer. Um olhar, uma canção, cinco palavras e até sorrisos preenchem-nos o coração naquelas curtas horas de voluntariado. Ninguém perde por experimentar, o dificil mesmo é não marcar presenca todas as semanas.“Nós tentamos levar um sorriso a todos os que estão na rua, com a simples distribuição de um prato quente e dois dedos de conversa. Enquanto voluntária sinto me abençoada!”, enfatiza a voluntária Ana Ranito. E agora que a época natalícia chegou, o frio aperta e estas pessoas precisam sempre de uma refeição quente que aqueça o corpo por dentro. Os convites estão feitos. Hoje a noite foi passada na ronda do Cais-do-Sodré, na próxima semana pode ser a do Oriente. Pode ser a sua vez. Cabe a cada um tentar tirar uma noite da longa semana de trabalho e dar um pic-nic com sorrisos, a quem todos os dias dorme com a luz da lua, sempre acesa. Com solidariedade e amor constrói-se sempre, e com sucesso, uma CASA! Não há dificuldades de maior quando se participa num projeto em que se acredita, quando se cria laços de afetividade tão fortes como os que esta experiência me proporciona” completa João Paulo Nogueira.

Susana Cruto



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