A TRAGÉDIA DE WILDERSWIL

23Dez14
Gentileza do Jornal Gazeta das Caldas

Gentileza do Jornal Gazeta das Caldas

O amor nem sempre se pinta de encarnado

Até onde se pode ir pela paixão? Os ciúmes levam muitas vezes à loucura e por vezes, pode tornar-se perigosa. Em casos extremos pode ser fatal. Wilderswil foi palco de uma divergência fatídica.

Nos Alpes, o vermelho forte da chama do amor desceu para um azul escuro e despenhou-se num desfecho bem negro. Lídia Leitão, de 42 anos e Jerónimo Pereira, de 50, foram assasinados por Alípio Pereira, de 52, o ex-marido. Diana, a filha mais velha, fechou a porta de casa e conseguiu salvar os irmãos mais novos, Rafaela e Leandro. O antigo cônjuge percorreu 2.000 quilómetros para matar o casal.

Durante a segunda-feira negra, 3 de Novembro, as autoridades criaram um largo perímetro de segurança, perto do local do sucedido: os autocarros foram desviados para parque de estacionamento, com o objectivo de impedir que os alunos da escola em frente, vissem os cadáveres. Nos dias seguintes, ainda se avistavam velas acesas, na estrada perto da casa, onde o crime ocorreu. Um símbolo de luto pelas vítimas. Nem mesmo o frio e a neve conseguem desvanecer a trágica manhã.

Uma amizade e um casamento terminados. Alípio Pereira era pai de Leandro de seis anos. Nunca aceitou o divórcio e quando a custódia do filho (fruto da relação com Lídia), lhe foi retirada, transformou-se num ser perigoso. Para muitos já era considerado como um total psicopata. Era amigo de Jerónimo, mas o ciúme pôs fim a esta camaradagem.

Antes de se instalar Wilderswil, o casal esteve muitos anos em Schuls, perto da fronteira do Liechtenstein. Lídia era constatemente ameaçada, por mensagens, por Alípio. A mulher, oriunda do concelho das Caldas-da-Rainha chegou mesmo a fazer queixa à polícia. Christoph Gnägi, porta-voz da polícia de Berna confirma: “Durante uma audição realizada no âmbito de um pedido de auxílio judiciário de outro cantão em outro caso (não relacionadas com asameaças), a vítima do sexo feminino mais tarde disse à polícia que se sentiu ameaçada pelo seu ex-companheiro, na Primavera de 2013.Uma vez que não foi uma ofensa pública, a mulher explicou as opções legais. No entanto, esta não apresentou queixa-crime explícita. Uma vez que a jurisdição (gestão de casos) não foi, no Cantão de Berna, o Departamento de Polícia, o protocolo de interrogatório, as referidas declarações foram registradas por escrito. Este foi recebido em conformidade com a assistência jurídica da autoridade.” E acrescenta: “No segundo caso, a polícia foi alertada pela vítima depois da mesma receber mensagens e chamadas indesejadas do ex-companheiro. Uma vez que não foi ainda um crime público, as opções legais foram mais tarde explicadas às vítima. A queixa-crime não foi apresentada neste caso. “

Este tiroteio deixou os moradores de Wilderswil assustados e um pouco tristes com os portugueses. Mas a polícia garante, que não influenciára a entrada de novos emigrantes lusos. ““A tarefa da polícia é esclarecer os acontecimentos, esta extensa investigação foi realizada por vários especialistas da polícia cantonal de Berna. Não estamos, portanto, expressar quaisquer consequências. Isso seria a especular.” Mas o receio anda à solta e José Cesário, secretário de Estado das comunidades tomou providências. “Espero que este triste acontecimento não manche a imagem positiva que os portugueses têm na Suíça. Por isso mantivemos contactos com a Presidente da Câmara da cidade onde os factos tiveram lugar, agradecendo – lhe os esforços realizados”, sublinha. Mas completa: “Tenho a certeza que não será um caso pontual deste tipo que influenciará a futura circulação de portugueses para este País.”

Durante a segunda-feira negra, 3 de Novembro, as autoridades criaram um largo perímetro de segurança: os autocarros foram desviados para parque de estacionamento, com o objectivo de impedir que os alunos da escola em frente, vissem os cadáveres. Nos dias seguintes, ainda se avistavam velas acesas, na estrada perto da casa, onde o crime ocorreu. Um símbolo de luto pelas vítimas.

O CASAL

Vizinhos, amigos e colegas de trabalho descrevem o casal como um exemplo de felicidade. Mário Oliveira era colega de trabalho Lídia, na lavandaria Washe Perle, em Interlaken. Convivia diaramente com ela, dentro da fábrica. “Eles eram pessoas maravilhosas, muito trabalhadoras e acima de tudo seres respeitosos. Eram os dois muito felizes. Eram tão boas pessoas, tanto dentro trabalho, como fora. Espero que respeitem os falecidos”, refere.

Não convíviam muito com a comunidade, mas frequentavam as lojas portuguesas. Paulo Dias, proprietário do ‘Tuga’s’ em Interlaken confirma. “Eles estavam cá há relativamente pouco tempo, pelo que dizem, não eram pessoas de sair e conviver muito com a comunidade, talvez devido aos problemas que tinham com o ex da senhora. Pelo que me davam a entender eram um casal simples, educado, e simpático. Não posso dizer que eram meus amigos, a nossa relação era apenas cordial, uma relação de cliente e comerciante Vinham cá à loja, sempre que precisavam de alguma coisa”, refere.

Perto da Lagoa de Óbidos, onde o azul do céu, se reflecta nas pequenas ondas, a Presidente da Junta de Freguesia de Nadadouro, Alice Gesteiro lembra-se bem do casal. “ O Jerónimo Pereira era uma pessoa muito dada. Antes de ir para a Suiça fez parte da equipa de futebol do Nadadouro e dançou no Rancho Esperança na Juventude do Nadadouro. Participou também noutras actividades. Dava-se bem com toda a gente e quando vinha de férias cumprimentava e falava a todas as pessoas. Toda a população da aldeia fala dele como uma pessoa simpática e correcta. Nunca me apercebi que andasse com problemas com alguém.” Entre os preparativos para a época natalícia deixa-se levar. “Já a Lídia fez um estágio no Centro de Dia do Nadadouro (fazendo também apoio domiciliário) em 2009. Todos gostámos muito dela no tempo que esteve neste estágio. Depois de terminar o estágio, não voltei a vê-la e creio que as colegas também não a viam há muito tempo”, completa.

O POSSESSIVO

Alipio tinha quatro filhos, mas apenas um, em comum com Lídia Leitão: Leandro. São vários os factores podem ter levado à loucura de Alípio: a perda do filho, os ciúmes, alguma falta de dinheiro, entre outros. Segundo alguns colegas de trabalho, ele mantinha uma expressão agressiva e era mesmo antipático com as pessoas.

Mara Pereira, filha mais velha de Alípio, contou ao Gazeta, um pouco da vida do pai. ” Ele era uma pessoa pacata, não se metia na vida de ninguém, amava os filhos, mas desejou muito este último filho e era muito amigo do seu amigo. Era muito alegre e brincalhão. Fomos uma vez passear ao parque. Fui eu, ele mais os meus irmãos, Flávia e Valdemar e tirámos imensas fotos juntos. Foi muito divertido”, relembra. Segundo ela, Jerónimo era um dos melhores amigos do pai. Alípio já vivia há mais de 20 anos nas terras helvéticas e foi ele mesmo que trouxe Jerónimo para cá. Entretanto conheceu a Lídia em Caldas quando passava férias. A jovem que agora mora em Lisboa recorda ainda um pouco a história do triângulo amoroso. “O meu pai levou a Lidia com ele para a Suiça há um ano e meio . Por sua vez, ela traiu o meu pai com o melhor amigo dele. Ela também tirou-lhe o meu irmão mais novo. A Lídia atingia o meu pai emocionalmente, pela criança e por isso o meu pai fazia tudo o que ela pedia, incluindo, dar umas pensões um pouco elevadas. O meu pai só queria o meu irmão mais nada”, conta. Mas acrescenta, deixando-se levar pela revolta:Nao se tira a vida a ninguém, jamais. Mas a Lídia e o Jerónimo fizeram o meu pai de palhaço e burro. Ele perdeu a cabeça. Ficou com uma mágoa e uma tristeza profunda.”

Os petizes afectados pela relação do delito foram alojados pela a autoridade de protecção de adultos (KESB) em cooperação com o município de Wilderswil perto dos parentes.

O Gazeta Lusófona continuará atento aos procedimentos deste caso. Para já a Gemeinde de Wilderswil quer ajudar os filhos do casal e por isso divulga o número da conta, onde qualquer um, pode doar a quantia que desejar: CH49 8084 2000 0041 6212 0. Depois, basta apenas escrever no destino: “Família de Wilderswil”. Na missa de sétimo dia foi feito um peditório, que até agora rendeu 1743 fr. Várias comunidades contribuiram, tal como Thun, Interlaken e Gstaad. Os dois irmãos mais novos já têm permissão para voltar a Portugal, com o avós maternos, nas Caldas da Rainha.

E nas palavras de Fernando Pessoa: ‘”Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada”. Este triângulo amoroso, que se mostrou tornar-se das bermudas, irá ser sempre recordado nos corações dos mais queridos.

In Gazeta Lusófona, Dezembro 2014



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