A poesia lusa chega a Matten

06Fev14

Os autores portugueses não se esquecem dos emigrantes da Suíça. Com uma vontade imensa de conhecer os Alpes e a comunidade portuguesa, António Carlos Santos apresentou o seu livro de poesia, ‘Versos de Fel e Mel’, em Matten, perto de Interlaken.

 

“Viana desperta. O sol está ali à mão e as águas levam o Lima até ao mar..”, assim é um dos excertos de António Carlos Santos. Inspira-se em vários temas, mas sobretudo é um poeta do amor, tudo o que mexe com o coração tem direito a palavras de encantar. São gritos de alma. E Viana do Castelo inspira-lhe na totalidade. “É uma terra encantadora e inspiradora…a frase institucional de Viana é “Viana é Amor” e conjuntamente com mais alguns amigos da escrita de Viana fundámos um movimento cujo nome é “Viana é poesia” para realizar tertúlias e trabalhar no sentido de na nossa terra com inspiração fazermos algum trabalho poético e cultural”, confessa.

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O sol já se pôs e as estrelas chegaram sem avisar, acompanhadas pelo escuro da noite. As ementas escritas em português e a cerveja bem traçada dão-nos conta que estamos num estabelecimento bem luso. Mas hoje está decorado de uma forma diferente. 
O Gazeta Lusófona não perdeu oportunidade e esteve presente na noite em que a poesia fez-se ouvir no Estrela Bar Ruuge, em Matten. Hoje é sexta-feira, o último dia do mês de Janeiro. Já passava das nove da noite quando a poesia se fez ouvir. O jornal conseguiu uns minutos com o autor, que desvendou alguns dos seus mistérios poéticos. Éresponsável comercial por uma pequena cadeia de supermercados em Viana doCastelo sendo que a poesia é um hobbie que nos últimos tempos se tem tornado mais sério. Mas António Carlos Santos ainda se lembra como tudo começou no mundo da escrita. O gosto pela escrita vem desde muito novo, pois ainda me lembro de em criança, quando ficava por casa ocupava o tempo a escrever historias longas nos cadernos de capa preta, sendo que a maior parte delas eram inspiradas nos livros dos 5 ou numa serie televisiva que dava na altura “Os pequenos Vagabundos”: Obviamente eram histórias inconsistentes mas fruto de pura imaginação e de uma vontade louca de escrever”, recorda.Actualmente há muitos portugueses apaixonados pela poesia. Estão encantados com as rimas e os versos de amor e não só. Nunca esqueceram os versos de Luís de Camões, Fernando Pessoa e sempre viraram duas ou três páginas de outros autores. Mas António tem uma teoria. “O panorama da poesia Portuguesa nesta altura á assolado por uma democratização da escrita e das edições, ou seja há um aparecimento de muitos novos autores uns com mais qualidade outros com menos, mas há de facto muita gente a publicar, no entanto a nível de vendas continuam a liderar os clássicos como Fernando Pessoa , Sophia de Mello Breyner etc. Dos consagrados contemporâneos destaco Joaquim Pessoa, José Luís Outono ou Casimiro De Brito. 

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A poesia não é um género literário com a expressão do conto ou do Romance mas com a tal democratização da edição e com a proliferação de tertúlias poéticas há uma maior divulgação do género e começa muita gente a ler poesia”, revela.

Lurdes Santos é responsável pela organização deste evento. Vestida a rigor para ouvir os versos poéticos conta como se lembrou de criar esta noite encantadora. “ Conheci o António numa rede social e adorei os versos dele. Ficámos amigos e mais tarde surgiu a ideia de fazermos uma apresentação do livro aqui em Interlaken. O verso que mais gosto é algo especial. Embora eu goste de todos, mas este é mais especial para mim. Chama-se ‘Vácuo’. Sinceramente penso que tal como eu gosto de poesia, deve haver mais portugueses emigrantes que gostem. Pelo menos assim o espero, já que este evento lhes é dedicado de uma certa forma. O objectivo deste evento é dar a conhecer a poesia e de ser algo novo, diferente do que normalmente costumamos ver por aqui”, sustenta.

É a primeira obra do autor, mas não será a única. “ Já tinha editado umas brochuras mas apenas para o circuito de amigos .Este livro surge na sequência de uma participação na “Antologia da Moderna Poética Portuguesa”, a convite da poetisa Ana Homem de Albergaria. Uma antologia que reunia 42 autores em destaque no nosso país neste género literário em onde eu era o único que não tinha obra editada. Após o lançamento da dita antologia o responsável da Seda editora formulou o convite para editar um livro sob a chancela da editora Versbrava. O título do livro está intimamente ligado ao estado de espírito retratado nos poemas. É poesia ligada à nova poética, ou seja, não é feita sob qualquer tipo de métrica, não tem quem ter necessariamente rima. Penso que é uma poesia com mensagem escorreita e fácil de ler. Em breves palavras “Versos de Mel & Fel” é o retrato de estados de espirito tão opostos como o amor e o desamor nos mais diversos quadrantes”, sublinha o autor.

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Maria Manuela Fernandes está na Suíça há 16 anos e trabalha num hotel em Interlaken. Esteve presente nesta noite poética e passou um serão a ouvir poemas de encantar. “Acho que foi um evento cativante, mas com pouca adesão. Mas penso que a poesia não é um grande ponto de interessente para os emigrantes daqui, infelizmente. Devíamos ler mais e incentivar os nossos filhos a ler muito mais. A leitura abre-nos horizontes, seja qual for o tipo de escrita”, realça com o sobretudo bem apertado. Um encontro onde a troca de ideias sobre poesia foi focada e bem distinta. Ouviu-se palavras de amor, de amizade, de encontros, de solidão e de mais de uma mão cheia de sentimentos. Uma noite que marcou quem esteve em Matten. Vozes femininas, masculinas deixaram-se levar pelas palavras românticas e recitaram poemas num abrir e fechar de olhos. Um encontro que fez descobrir a poesia que há dentro de cada um de nós.

No futuro próximo, mais precisamente dentro de três meses, um novo livro vai estar nas bancas, em duas versões. Uma no conceito normal e a um preço muito baixo. A ideia é atingir novos públicos. A outra versão é de luxo, com capa dura e cada poema será acompanhado por uma obra de uma amiga pintora.

E no final de tertúlia, ainda com as estrelas bem altas, o autor deixa o público sonhar com o poema: “ Quatro estações do coração e um poema de amor”. E acrescenta agradecendo. “Encontrei portugueses com uma grande alma Lusa.Normalmente sente muito mais o seu país, quem está fora dele. Encontrei gente boa e com receptividade para este concidadão que vem conviver com eles uma noite e que lhes traz um pouco do seu país num livro de emoções opostas. Afinal Portugal também é feito por esta gente, eles também são Portugal.”

A comunidade portuguesa já está à espera da próxima visita do autor.

 

In Gazeta Lusófona, Fevereiro 2014



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