Ski: da ética de aprendiz à competição

21Jan14

Deslizar a alta velocidade: assim pode-se resumir o ski. São já muitos os portugueses que se apaixonaram pela neve e pelos desportos de Inverno. Uns escolhem o snowboard e outros não deixam de experimentar o ski. Mas será que há uma ética neste desporto?

 

Neve. Ética. Um par skis. Carlos Albuquerque já passou por várias estâncias, mas nunca esquece a primeira vez. “O meu interesse pelo ski foi algo ao que se chama amor á primeira vista. Cheguei à Suiça a 24 de Dezembro de 1988, uma semana depois já andava a treinar sozinho para tentar aprender. Até que foi muito engraçado. A primeira vez que andei de ski, pus-me a fazer ski numa pista que não era pista, nem era nada. Era um campo de erva e eu quis experimentar. Pus-me em cima dos skis e claro atingem-se velocidades loucas. Como não conseguia travar, segui em frente, atá que fui parar a uma poça de água. Fiquei todo molhado. A segunda vez que meti os pés no ski já era tudo mais fácil e mais prático. Até que um dia, eu e os meus amigos de trabalho combinámos todos de ir para a montanha. Aí sim foi engraçado, porque deixei-os de boca aberta”, conta. As competições começaram por acaso. “Houve uma prova de ski de todos os empregados de todos os hotéis e eu fiquei em 15°.Quando entregaram os prémios foi uma surpresa para mim. Aí sim. Senti que tinha de aprender mais e mais. Mas, passados quatro anos mudei-me para AARAU. E desde aí que perdi um bocado do tempo que tinha em Grindelwald, derivado ao trabalho. Contudo, havia sempre um dia ou dois na semana que me davam a possibilidade de esquiar. Claro que, a maior surpresa foi quando fui participar numa prova de ski”, deixa na expectativa. Iniciou as competições depois de ficar em sexto lugar numa prova. No final do evento, alguém o abordou e desafiou-o para participar nas provas mais aliciantes. Não pôde deixar de esconder a felicidade estampada no olhar e num simples dia de trabalho, chega a casa e recebe uma carta do Ski Clube Zurileu, de onde fez parte. “Marcámos uma reunião. Surprenderam-me com o Peter Alfare e Peter Müller, um ex -campeão da Suíça. A notícia era que iria passar a ser treinado por ele. Fiquei sem palavras. É como levarmos uma injecção de adrelanina pura. Aí comecei a participar em provas e onde entrei numa prova que no ano a seguir consegui ganhar por três vezes. Foi a prova do Volksabfahrt Hoch-Ybrig. Durante este tempo recebi uma carta, descobri a Federeção de Portugal de Ski e mais tarde recebi a a licença de esquiador internacional. O meu espanto foi que numa prova eu estava maravilhado com a minha prestação porque consegui ficar em 45°. Aí tive mais força para continuar . E isto tudo aconteceu em 1992 1993 quando em Janeiro recebo uma carta em casa, com o apuramento para ir aos Jogos Olímpicos de Inverno – Lillehammer 1994. Seria na descida no Super Slalon que era a minha especialidade. Fiquei radiante. E como se não bastasse, já tinha dois patricinadores, que era a reisen kaufman em Zurich e o Borges Crédito. Também tive o apoio do Consulado Português em Zurich. E foi assim que tudo começou…”, conta.

Na Suíca, participou em 1993 e 1994, na Lauberhornrennen e na Adebolden. E já percorreu mais alguns países na Europa com o ski às costas. Mas sempre se deixou levar pelo encanto dos Alpes Suíços e referiu que o mais belo local suíço é mesmo Grindelwald. Os emigrantes portugueses aqui na Suíça interessam-se mais pelo snowboard. São mais os que praticam snowboard, dos que fazem ski. Mas Carlos tem uma teoria. “Do meu ponto de vista do que conheço e tenho encontrado muita gente nas montanhas a fazer ski. Vejo que as pessoas esforçam-se para praticarem na perfeição, mas sem alguém para os orientar fica dificil. Quanto a mim a razão desta realidade é que 95% dos portugueses radicados na Suiça não sabem, nem têm noção do que é o ski”, expõe. Mas vai mais longe. “Na minha opinião, a juventudo de hoje não se importa com esses desportos. Os jovens de hoje estão mais virados para as noites e farras. Tanbem fico às vezes surpreendido porque sei, que todas as crianças da escola fazem sempre uma a duas semanas de ski. E tenho que pena que não sejam seguidas e aproveitadas. Quem sabe podemos estar a perder talentos e não temos noção”, completa.

carlos

Os Alpes Suíços encantam qualquer esquiador, seja profissional ou amador. As pistas atraentes e as altas montanhas deixam qualquer um com vontade de descer sem parar. Nas competições de esqui alpino, há regras a cumprir. E muitas vezes também há quem faça ‘batota’ e ninguém diga nada. Foi o primeiro português a participar num campeonato do mundo de esqui alpino. Diversas vezes campeão nacional, João é representante da seleção nacional desde 2006 e representante de Portugal em provas de alto nível João Miguel Marques consegue resumir em breves linhas o regulamento das altas competições e esclarece a ética neste desporto. “Parece-me que a ética está de certa forma ligada às pessoas, e são pessoas que fazem uma modalidade, é certo que por vezes e como em qualquer lugar existem “anticorpos” que com a falta desta característica acabam por tentar sair de forma injusta beneficiados em relação aos outros deixando a imagem do desporto denegrida. No esqui alpino a “batota” consiste fundamentalmente com o equipamento, havendo claro também quem recorra ao famoso “doping”. Infelizmente hoje e com o avanço da ciência e da tecnologia são cada vez mais as maneiras de fugir às leis do desporto. Relativamente ao material é primeiro fundamental compreender que o esqui alpino é um deporto onde se pode perder por milésimos de segundo, ou seja é dos desportos mais competitivos do planeta e onde a mínima diferença de tempo pode ser crucial para passar de primeiro para décimo. É então aqui que entramos no mundo do material e na falta de ética. Existe um vasto conjunto de regras sobre o material. Medidas onde entra o cumprimento, os raios dos esquis, a distância média da fixação da bota até á sola do esqui, a largura que o esqui vai tendo desde a parte mais superior até à parte mais inferior. A densidade tanto dos esquis como das botas, a espessura da bota, o material de que é feita a bota e a flexão da mesma. Poderia escrever dezenas de linhas sobre regras relativas ao material mas fico por aqui”, sublinha. Mas há regras importantes e que muitos talvez teimem em quebrar. “A verdade é que todas estas regras servem para deixar os corredores em igual patamar antes de saírem para a pista. Contudo sabemos que muitas vezes alguns mesmo por indicação das equipas técnicas não cumprem. 

JOAO

Como disse, o tempo define-se ao mínimo pormenor e se através do material os corredores conseguirem retirar um ou dois milésimos de segundo ao seu tempo vão sair beneficiados. Felizmente a FIS está a dar conta e vai fazendo um controlo muito apertado em algumas provas, principalmente nas mais importantes, em mundiais, taça do mundo e taça da Europa todos são verificados. Claro que nem sempre o controle é perfeito. Relativamente ao dopping sei que ao longo do tempo foram detetados casos e que tem vindo a diminuir por força do apertado controle feito pelas entidades competentes. Infelizmente há quem não olhe a meios para atingir os fins prejudicando a imagem de toda uma modalidade. Não penso que ninguém diga nada em relação a isto, estes problemas estão identificados e vão sendo combatidos. Sou da opinião que o Esqui Alpino é uma modalidade com ética e que existem desportos com problemas de muito maior envergadura, onde o combate tem sido infrutuoso”, esclarece. Competiu em St.Moritz, em 2008 e venceu o slalom da taça das comunidades portuguesas. Realizou ainda outras competições, treinou em Saas-Fee, onde se pode treinar a partir de Julho.

Em Kleine Scheidegg, no fim-de-semana de 17 a 19 deste mês vai realizar-se a 84a edição do Lauberhorn Rennen, onde muitos candidatos testam as suas capacidades.A Suíça é na minha opinião dos melhores locais no mundo para a modalidade, tem condições fabulosas, técnicos da elite mundial e principalmente estâncias únicas.O Lauberhornrennen em Kleine Scheidegg é dos maiores eventos na modalidade e uma competição onde qualquer atleta no esqui ambiciona participar. Infelizmente nunca me surgiu a oportunidade de o fazer, é uma prova que entra para o calendário da Taça no mundo e em termos de ranking nunca consegui ter entrada nesta prova. É também uma prova mítica do calendário mundial e de exigência máxima.É claro que gostava muito de um dia conseguir estar no Lauberhornrennen. Veremos”, complementa João.

 

In Gazeta Lusófona, Janeiro 2014



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