‘Cantamos a vida portuguesa’- Entrevista ao vocalista dos UHF

07Nov13

A banda que despertou o rock em Portugal esteve de passagem em Interlaken. No sábado de 7 de Setembro, muitos foram os portugueses que à noite abraçaram o Eissportzentrum em Matten, Interlaken para cantar e aplaudir os UHF.

IMG_4311O Gazeta Lusófona teve a oportunidade de estar à conversa com o vocalista António Manuel Ribeiro antes dos exercícios vocais e descobriu alguns mistérios.

Gazeta Lusófona: Este novo álbum ‘A minha geração’ assinala os 35 anos dos UHF e contém o tema ”Vernáculo”. Que impacto que dar à sociedade portuguesa com este tema tão agressivo?

António Manuel Ribeiro: Nós quando gravámos o disco, eu pessoalmente como autor da canção não fazia ideia da reprecursão que a canção ia ter. Portanto.. Faz-me lembrar que é uma canção escrita na hora certa. Mas há aqui uma rectificação que é preciso fazer: o vernáculo é um poema meu original, editado num livro meu em 2006. Só agora é que fiz a música. Isso revela várias coisas . Uma delas é que poucas pessoas leem poesia e a segunda é de que o país não mudou nada em sete anos. O que eu sinto, até pelos comentários que vejo no Youtube é que as pessoas reveem-se muito na atitude que no fundo o poeta tem ali, que é uma forma de expressar um sentimento que se ouve e que sente… nas conversas na rua, nos cafés. Há um descontentamento que está a chegar aos limites. E no fundo foi isso que o poeta tentou fazer há uns sete anos atrás.

GL:35 anos é uma vida. O que aprendeu nestes longos anos de carreira?

AMR: Aprendi imenso. Não páro de aprender. E sobretudo crescer. A música fez de mim uma outra pessoa. Provavelmente se eu não fosse músico, não seria como sou hoje. Até porque por exemplo, as minhas constantes digressões. Há 34 anos que eu percorro o país, a Europa e o resto do mundo. Aprendi a conhecer as pessoas, a respeitar as pessoas, a entender a génese da essência da sociedade portuguesa e isso é um acrescento na minha vida fantástico. Provavelmente se eu tivesse outra profissão não teria digamos, a visão que hoje tenho da nossa sociedade.

GL: Com esta longa data será que os fãs podem esperar um livro de poesia sobre este marco? Será a próxima obra de António Manuel Ribeiro?

AMR: Sim. Estou um bocado adiado, porque não tenho tido tempo, mas eu penso que ainda este ano será a antologia . A minha antologia foi um desafio que me foi feito. Já editei quatro livros, nomeadamente três são de poesia inédita. Fui buscar o melhor produto, daquele que mais me represente hoje fiz uma espécie de primeiro livro. Depois há um segundo livro que é de poesia inédita, mas é um livro um bocado grosso. E eu preciso de mais tempo. Nomeadamente no Verão não tenho esse tempo para, parar e estar a escolher o poemas.

GL: Como explica a longevidade da banda? O seu aparecimento nos anos 70, aconteceu quando a juventude apenas ouvia bandas internacionais?

AMR: É verdade. Eu acho que aquilo que fundamenta a longevidade do UHF são as suas canções e a proximidade logo muito prematura com o público. Há uma cumplicidade muito forte. Nós somos mesmo um grupo português. Cantamos a vida portuguesa. Cantamos a pessoa portuguesa. E isso as pessoas conhecem muito bem. Nós temos canções muito emblemáticas, porque nos representam, porque são mesmo aquilo que é a essência do ser português.

GL: O concerto com os Doctor Feelgood em 1979, em Cascais, marcou-lhe bastante certo? Tem saudades da grande sala de concertos naquela zona?

AMR: Nós éramos uns maçaricos, uns principiantes. E portanto, quase fomos lançados às feras, para cima de um palco enorme. Na altura, o pavilhão de Cascais era a grande sala de espectáculos de Lisboa. Era maior que o Coliseu e era onde se faziam os concertos internacionais. Nós tocámos em duas noites. Os Doctor Feelgood eram uma banda de top mundial e só isso já fazia tremer. E depois num pavilhão que na altura penso que levava seis mil pessoas e falou-se que havia mais 8 mil pessoas por noite. Era um ambiente inimaginável para uma banda que praticamente há meses estava na garagem. Eu cresci muito nesse palco.

GL: Como se sente quando, passado tanto tempo, ‘Cavalos de Corrida’, ‘Rua do Carmo’ e outras músicas, ainda continuam a ser ouvidas por diversas gerações?

AMR: Eu não sabia que ia ser assim. Hoje sou um homem pacificado por entender que hoje as grandes canções não têm tempo. Passam por cima da fronteira do tempo, porque não estão coladas a modas. Eram uma moda, mas ficaram para além da moda. Aprendi a viver com isso.

GL: Qual a sensação de tocar com o seu filho na mesma banda?

AMR: É uma escolha que ele fez. Nunca foi uma orientação minha. Eu não pertenço àquele grupo de pais que acha que os filhos têm de ser iguais aos pais. Os meus filhos têm as suas orientações. O Tó tornou-se um bom guitarrista e hoje tem o lugar por mérito próprio. Conquistou-o. Os UHF não são a monarquia. Não há heranças.

GL: Dos artistas Mountain, Simon & Garfunkel, Patti Smith, que fazem parte da sua lista musical…Qual dos artistas lhe oferece mais inpiração?

AMR: Eu hoje não procuro inspiração. Já tenho o meu rio de inspiração. É um rio que corre. Ás vezes está com menos água, outras vezes tem mais água. Há mais velocidade ou menos velocidade. Hoje quando estou a escrever, oiço Jazz. É a minha música de grande apasiguamento. Preciso de música sem palavras, quando estou a trabalhar. É curioso mas é verdade. Quando estou a escrever não estou a ouvir Hard Rock, nem mais ou menos.

GL: É a primeira vez que actuam na Suíça?

AMR:Não. Já tocamos muitas vezes. Temos vindo cá algumas vezes. Mais de 15 de certeza.

GL: O que acha do público emigrante?

AMR:Nós aqui tocamos mais para um público heterogéneo, no sentido das famílias.As pessoas vêm ao sábado para se divertirem e trazem a família toda.Não é que isso não aconteça em Portugal, mas lá nós temos muitos jovens que vão aos espectáculos. Aqui nós temos aqui uma outra forma de fazer, porque existe o jantar colectivo com as pessoas. É uma forma diferente. Nós estamos aqui a viver um pouco do nosso país.É a música portuguesa, são as bebidas portuguesas, são as pessoas portuguesas, é o convívio português.

GL: O que gostou mais da Interlaken?

AMR: Eu gosto muito das altas montanhas, dos grandes espaços com água. Os lagos lindissimos, ainda hoje passámos por um lago que tem um verde espectacular. A Suíça tem quase uma pureza natural. É brutal as escarpas… os montes…os cumes das montanhas. E eu gosto desse encontro forte com a natureza.

GL: O que leva da Suíça na bagagem?

AMR: Gosto de me encontrar aqui com as pessoas que no fundo saíram do nosso país por necessidade, e que mantém aquela ligação muito sentimental que os portugueses têm com o nosso país. Se nós podemos vir aqui, fazer um momento em que essas pessoas conseguem fazer um momento de ponte com o país de origem e se conseguimos fazê-las felizes, cumprimos uma missão, porque as pessoas quando estão longe do sítio onde nasceram têm uma coisa chamada saudade.

GL: Que projectos tem para o futuro?

AMR: Neste momento é divulgar este disco, que está em fase de lançamento. Nós em Agosto nem fizemos promoção, porque os concertos não permitiam. Estamos a retomar agora em Setembro, a promoção. Queremos levar este disco longe, porque foi um disco que nos deu muito prazer em fazer. Ficámos muito felizes com o resultado final. Temos recebido elogios. Vale o que vale. No fundo são críticas. Há quem considere este disco, o melhor dos UHF. Não vou dizer que é ou que não é. Mas é engraçado que várias pessoas digam isso. E também temos o fenómeno do ‘Vernáculo’ que é uma canção com quase 11 minutos declamada em que as pessoas agarram naquilo e assumiram como um bandeira. Não fazia a mínima ideia que isso pudesse acontecer. O poema foi editado há sete anos. No youtube há comentários que até arrepiam.

 Susana Cruto

In Gazeta Lusófona, Novembro 2013gl_21

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