Donas de casa não desesperadas

16Jul13

Não são de casa, mas são do hotel. Na região Berner Oberland são muitas portuguesas que assumem o papel de ‘allrounderin’. Fazem de tudo um pouco e não têm problemas em trabalhar, nem desanimam.

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A dificuldade da nova língua por vezes não é boa companheira para os jovens emigrantes. A procura de trabalho torna-se escassa quando um dos requisitos passa por saber um pouco de alemão. Esta barreira corta asas a muitos sonhos por realizar. Várias jovens optam pelo emprego nos diferentes hóteis. Fazem de tudo um pouco. Elas lavam, limpa, servem,cuidam, aspiram e muito mais. Em bom alemão são as “allrounderin”. São com estes empregos que se aprende a língua aos poucos e poucos. Engane-se quem pense que estas raparigas têm vergonha ou são infelizes por trabalho neste ramo. Portugal não está a responder aos licenciados, aos que têm o 12º ano e tão menos os mestres. Não há razão nenhuma para esconder o que se faz. Afinal de contas, trabalha-se, junta-se dinheiro e acima de tudo vive-se uma vida sem preocupações severas.

Chega de conversa, vamos é trabalhar. Não há tempo a perder.

Em Grindelwald, umas das maiores zonas turísticas da região Berner Oberland, há quem não tenha medo de arregaçar as mangas e falar abertamente da rotina. Chama-se Joana (nome fictício) e trabalha como e

mpregada de limpeza no Hotel Hirschen, onde a vista cai sobre as imensas montanhas. Veio para a Suíça por estar habituada a um nível de vida que sozinha não conseguiria nunca manter nas terras lusas. Em breves palavras sublinha que teve uma fácil adaptação, mas que mais difícil é sem dúvida o novo idioma. O dia-a-dia compõe-se com a preparação dos quartos e o trabalho na lavandaria. Dias mais cansativos, momentos mais curiosos e caricatos. “ Houve um dia que ia preparar-me para fazer uma cama de um cliente que iria ficar hospedado no hotel nessa noite… e só depois de tocar no duvet, reparei que o cliente estava deitado. E o mais engraçado, nesse mesmo quarto, reparei que as toalhas desse quarto tinham sido todas atiradas para o telhado do vizinho”, conta entre gargalhas.Contudo, o mais aborrecido é quando não há trabalho suficiente para ocupar o dia. Mas a discriminação está sempre na sombra e por vezes toca no fundo. “Já me senti muitas vezes descriminada, mas nunca por suíços, sempre por alemães, como eles dizem, «scheiss portugiesisch»”, desabafa. “No fundo, ser housekeeping aqui na Suíça é no meu caso, de um hotel pequeno, fazer parte de uma família de patrões e empregados que se ajudam mutuamente para conseguir manter em bom funcionamento o hotel, sem discriminação por se ser empregada de limpeza”, acrescenta.

Mais uns metros acima, perto da gôndola que tem como destino final, First, Luísa (nome fictício) trabalha no Hotel Sunstar há já algum tempo. Está na Suíça há mais de dois anos e chegou da Guarda para ficar. Tem o 12º ano e decidiu emigrar por falta de emprego em Portugal. A adaptação não foi difícil. “A principal dificuldade foi a língua e habituar-me a alguns tipos de comida,” confessa. O quotidiano é simples. “Os dias não diferem muito, por vezes há dias mais stressantes quando há muito trabalho e outros são mais calmos quando há menos. O meu horário é das 08h00m ate ás 17h15m. Começo o dia na limpeza dos quartos, quando acabo cedo vou ajudar outros meus colegas a acabar os quartos e por fim vamos ajudar na lavandaria. Uma vez por semana tenho também o horário das 08h00m ás 16h30m e das 19h00m ás 20:00, é a mesma rotina mas tenho uma hora de cobertura que consiste em abrir as camas dos clientes, tirar o lixo dos quartos e oferecer um chocolate”, relata Luísa. Por vezes há episódios aborrecidos. “Por vezes há clientes que querem que fale em alemão por estar na suiça mas devido a eu não saber essa língua falo em inglês e alguns clientes não gostam e dizem-me que estou na Suíça e não na América. E depois também há dias que quando de manhã bato à porta dos quartos para limpar e os clientes ainda estão a dormir e tenho que esperar para começar a trabalhar é maçador. E às vezes os quartos cheiram muito mal e estão completamente desarrumados. Ser housekeeping na Suíça é um trabalho que devia ser mais bem pago”, conta. E acrescenta entre risos: “ Mas também já encontrei clientes nus no quarto”. Tem objectivos bem definidos. Pensa em regressar a Portugal. Mas por agora, a ideia é ficar por aqui até a situação de crise em terras lusas melhorar e juntar algum dinheiro para poder uma vida melhor no seu país. Adaptar-se a um novo país não é fácil. E por vezes até há episódios risíveis. “Por exemplo quando vou as compras há produtos que só têm rótulos escritos em alemão e como não percebo por vezes compro os produtos errados”, refere. Mas acima de tudo aconselha quem pensa em emigrar para os Alpes. “Aqui podem ter uma vida melhor e consegue-se juntar mais dinheiro para comprar coisas que queremos e que em Portugal não conseguimos ter.”

 

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Muito mais acima, precisamente a 2061 metros, Vera Almeida trabalha no Bergrestaurant Grindelwaldblick e todos os dias há muito que fazer. “Entro às 8h15m e começo por lavar o chão do corredor e das escadas. A seguir lavo as casas- de- banho dos clientes. Depois vou fazer os quartos, onde temos de retirar os lençóis sujos, pôr lavados e aspirar. Mais tarde lavo os duches dos clientes, vou para a lavandaria tratar da roupa. Ao meio-dia tenho de estar no bufett, onde tenho de preparar as bebidas que as ‘service’ pedem, desde cafés, a bebidas mais frescas. Por volta das 16h00m vou repor as bebidas que ficaram vazias, com o movimento do restaurante, e limpo o buffet. Termino o trabalho as 17h15”, relata. E acrescenta: “Mas o mais aborrecido, é aos domingos que tenho sempre as 90 camas para fazer”. Veio para a Suíça em Fevereiro de 2005, porque já na altura Portugal estava com muito desemprego e Vera veio ter com o seu mais- que- tudo. Não foi fácil a adaptação, mas agora tudo já acalmou. Para já não pensa em ir para Portugal. “Pelo menos para já, gosto de estar aqui na Suíça, gosto de estar aqui sozinha com o meu filho e com o namorado. O único objectivo neste momento é viver um dia de cada vez”, sublinha. E já dizia Benjamin Franklin: « Trabalha com gosto e terás o gosto do trabalho.» Mas segundo Albert Einstein, ‘O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário’.

In Gazeta Lusófona, Julho 2013



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