O paladar luso no portão de Matten

05Fev13

A bifana dos Santos Populares ou as francesinhas à moda do Porto: a escolha é difícil. Ainda mais quando não sentimos o cheirinho destes sabores há já vários tempos. Estas iguarias tipicamente portuguesas são servidas no acolhedor ‘Estrela Bar Ruuge’, à entrada de Matten,entre Wilderswil e Interlaken.

 

Maria Albuquerque e Orlando Albuquerque

Maria Albuquerque e Orlando Albuquerque

Cá fora, cadeiras e mesas de plástico a publicitarem a cerveja Sagres compõem um pouco a fresca esplanada. À porta, o quadro a giz está escrito em língua portuguesa e de perto consegue-se ler as especialidades da casa e os respectivos preços. Mas dois passos mais à frente outro quadro às cores salta-nos à vista, mas desta vez com palavras alemãs.

Entra-se e dá-se de caras com uma pequena vitrina com vários pastéis de nata. Ao fundo uma mesa de matraquilhos instala-se junto a uma oval mesa de madeira. O ambiente é acolhedor e rústico.

“É um licor de beirão e um cafezinho, por favor”, ouve-se de perto uma voz rouca. Um senhor com um sobretudo comprido e escuro pede sem hesitar. Não deve passar dos 60.  Do lado de dentro do balcão, a proprietária prepara o pedido. A máquina de café inicia o seu processo e no final uma chávena de café delta apresenta-se em cima da mesa, juntamente com um copo balão de digestivo com uma pedra de gelo.

Maria Albuquerque tem 52 anos e abriu este estabelecimento há cerca de dois anos. O nome tem um familiar significado. “O nome ‘Ruuge’ é porque deixámos ficar um bocadinho do espaço que era antes. Era o Ruuge bistro. Foi também para não perdermos os fregueses todos. O ‘Estrela’ é em consideração à minha terra, porque eu sou da Serra da Estrela e é uma homenagem a um café que tínhamos em Gouveia, mas acho que já fechou.  Era de um casal amigo e nós tínhamos uma grande afeição”, explica Maria Albuquerque.

Aqui não faltam sabores para experimentar e acima de tudo oriundos de várias zonas portuguesas. Há lugar para bifana, que nasceu em Vendas Novas e que se pode rapidamente descrever num simples bife de porco preto, marinado e cozinhado num molho especial. O pão é bem tostado. Mas em Matten há uma receita especial e custa apenas 12,5 francos. “Servimos a bifana mista, com batata frita. O pão é português e bem redondo, juntamos o fiambre, o bacon e por fim o queijo. Tem saído muito nestes últimos dias”, conta a proprietária.

A alheira ocupa também o seu lugar na carta de petiscos e é bastante consumida no Inverno, como aperitivo ou nas refeições acompanhada principalmente com batatas. Para quem não se recorda, a alheira foi inventada pelos judeus de Trás-os-Montes como forma de escapar das perseguições da Inquisição. Todos sabiam que a religião deste povo impede que se coma carne de porco. Para que não fossem descobertos, porque não tinham o hábito de colocar para defumar as tradicionais linguiças, resolveram criar um novo tipo de embutido, feito com outros tipos de carne e pão para dar consistência. A receita acabou por ser popular também entre os cristãos, que logo adaptaram o modo de fazer, incorporando a sempre presente carne de porco.

Há espaço para o pica pau e sobretudo para a francesinha que ronda os 20 francos com batata frita. O prato típico da cidade invicta também já é famoso em Matten. Mas fica a curiosidade que uma das teorias sobre a origem desta iguaria leva-nos ao contexto da Guerra Peninsular, declarando que as tropas napoleónicas costumavam comer umas sandes de pão de forma, onde colocavam toda a espécie de carnes e muito queijo. Contudo, na altura ainda não se incluía o famoso molho, que os portuenses mais tarde complementaram. Este prato foi criado com base na tosta francesa, o ‘croque-monsieur’ e daí o nome.

“Optámos depois por fazer as asas de frangos, a ripas, fazemos bitoque, fígado, rins, tostas mistas, etc. Podemos sempre fazer um lombo assado, uma feijoada. Isto aqui é pequeno e por isso não podemos ter uma carta muito grande. E o conselho que nos deram, foi ter algumas especialidades colocadas no quadro para todos os clientes verem e o resto, apenas divulgar na hora”, acrescenta à ementa a dona do estabelecimento.

Contudo, há uma perdição que já faz muitos clientes marcar o ponto no Estrela Bar Ruuge. São os famosos pastéis de natas, ou natinhas como já são mais conhecidas. Com a massa super estaladiça e um recheio muito cremoso, tornam-se em pequenos momentos de prazer enquanto são trincados pelos diversos fregueses.

O pequeno-almoço tipicamente português

O pequeno-almoço tipicamente português

O número de clientes assíduos cresce dia-a-dia. Mas ainda é o português que mais passa a porta de entrada. “De ano a ano temos dado um saltinho, muito português. Pouco suíço, gostava muito de ganhar pessoas suíças, porque um dia que não pudesse vir o português, viria o suíço. No outro dia, tivemos de tudo um pouco, portugueses e suíços. Parecíamos um café normal”, esclarece Maria. Mas acrescenta:“ No momento, o suíço ainda não tem aquela confiança. Antes isto era um bar das motas e foi mudando muitas vezes de gerência, de pessoa para pessoa. E quando isso acontece eles perguntam-se muitas vezes porquê e então ainda não confiam tanto.”

Mas ainda faltam portugueses. “Aqui faltam-me as pessoas de Interlaken, porque as pessoas da montanha já tenho todas. Faltam os portugueses da cidade”, salienta Maria Albuquerque.

Contudo, há clientes que param para um café ou até mesmo para comer uma delícia portuguesa. Susana Vieira já marca o ponto no ‘Estrela Bar Ruuge’ há quase dois anos e já tem preferências no paladar.“Os pastéis de nata são deliciosos e mesmo frescos. Feitos na hora.  Mas a francesinha é mesmo do Norte e as batatas fritas da dona Maria são viciantes”, refere. Os elogios não têm fim. “É um cantinho agradável e simpático. Acolhedor e acima de tudo é um espaço para passar uma bela tarde na conversa”, acrescenta.

As ideias para angariar novos clientes não param de crescer. A noite do karaoke chega de 15 em 15 dias e a discoteca faz-se notar todos os sábados. Há espaço para todos, os que sabem dançar, os que ainda tropeçam no sapato e ainda para aqueles que só querem beber um copo para desanuviar do trabalho.

Mas os momentos realmente caricatos são os de cantoria.“ O karaoke faz rir muito. Há uns que cantam muito bem, há outros que cantam muito mal. Acho mais graça às pessoas que não cantam nada, mas têm vontade de ir cantar e não têm medo. Do que por exemplo, aquela pessoa que tem uma voz linda e que todos já sabem que sabe cantar. É engraçado quem não sabe cantar, ir ao microfone e mostrar o que sabe fazer. Aplaudo mais a pessoa que nunca cantou e que vai ali para divertir. E temos minutos muito cómicos. Gosto muito desta noite de karaoke, nunca se sabe o que vai acontecer”, confessa a anfitriã.

 

E sem falsas modéstias, Maria Albuquerque não tem medo de quem possa entrar. Convida todos sem hesitar. “É um café onde podem trazer a família, é um cantinho tranquilo. A criança vem, tem os seus brinquedos, têm o salão de jogos para jogar. Venham visitar a minha casa, é muito tranquila e limpa. Faço questão na higiene. Adoro ter as minhas coisas asseias. Não é para me gabar, mas a minha casa-de-banho, podem-se sentar lá descansados. De manhã à noite, está sempre controlada. E eu digo sempre, que me venham conhecer, porque tenho boas coisas. Tenho pouca coisa, mas com boa qualidade. Da pastelaria à comida é tudo fresco. Não sou pessoa de fazer mise en place.”

 

In jornal Gazeta Lusófona Fevereiro 2013

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One Response to “O paladar luso no portão de Matten”

  1. 1 José Manuel Lello

    A francesinha a conquistar a Suiça – Like !


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