A arquitectura do livro: Capítulo 104

10Jan11

Livraria Lello & Irmão


Foi considerada pela Lonely Planet como a terceira melhor livraria do mundo. A Lello é uma instituição no Porto e visita obrigatória para quem vem de fora. Faz 104 anos para a semana. Susana Cruto (texto) folheia algumas páginas das suas histórias. Nelson Garrido assina as fotografias

Entra-se e há livros…muitos livros. Um local onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam numa escadaria vermelha, que sozinha conta histórias e ilustra imagens. Na rua das Carmelitas, a Livraria Lello e Irmão faz hoje 104 anos e já mostrou a quem por lá passa, que é mais que uma loja de instrumentos de leitura.

Perto da ala nocturna das galerias Paris, onde os mais jovens acolhem a doce noite com risadas e euforia, está a requintada, histórica livraria da zona da Carmelitas. Uma segunda casa para muitos, um ponto de visita para outros.

A típica biblioteca cheia de livros do tecto ao chão, que vimos na fantasia de ‘A bela e o monstro’ faz-nos lembrar, assim que viramos a página para o capítulo Lello. Os tacos de madeira, todos organizados compõem o chão que os nossos pés pisam levemente. Dois andares e uma união arrebatadora: uma longa e característica escadaria vermelha. São mais de 120.000 títulos que embelezam este local de grande culto nas mais diversas áreas e línguas.

Um refúgio sem dúvida hospitaleiro que faz parte da memória de Beatriz Pacheco Pereira, desde criança. Fundou o Fantasporto, escreve sobre o Porto e luta pela cidade Invicta. “É uma livraria que me acompanha, mas tem um defeito grande. Entra-se atraído pelas montras, sempre cuidadas, mas depois há um momento de esplendor que nos faz esquecer por que entramos, o livro da montra que iríamos comprar. E talvez estes deslumbres, sejam maus para o negócio dos livros”, partilha. Mas também tem uma qualidade. E não demora acrescentar: “Continua a ser uma livraria a sério, como já não há muitas na cidade. Requintada, solene, um templo do livro e do saber. Magnífica. E, para raiva de muitos, no Porto…E o ambiente? Calmo, nada tecnológico e industrial. Entre o sublime e o realista.”

Um recanto sagrado, onde os livros fazem viajar a lugares encantados. Entramos num mundo cheio de pormenores que embelezam o número 144 da rua das carmelitas. Em estilo neo-gótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da Livraria. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência.

Um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração imponente.   Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem  para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado. À esquerda e à direita, nos longos pilares distinguem-se os ilustres homens das caligrafias como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Teófilo Braga ou até mesmo Guerra Junqueiro. E se é do tempo do filme Xangô de Baker Street, recorde-se que aqui foram filmadas algumas cenas desse filme baseado no romance de Jô Soares.

Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. Mas António Pedro Ribeiro não é de representar. Entrou pela primeira vez na livraria há cinco anos e ficou impressionado. Um poeta e cronista do Porto que invade poucas vezes a livraria, mas que já conseguiu traçar uma caracterização bastante poética. “A Lello é um espaço aberto ao leitor e à leitura. Um hino ao livro e à leitura. E é mais do que uma livraria. É uma maravilha da arquitectura. Uma casa do livro do convite à leitura e do convívio entre leitores”, qualifica.

O aspecto arquitectónico chama logo à atenção a quem seja ou não arquitecto. Mas os especialistas da matéria têm mais a dizer. São amigos de longa data, mas foi há sete anos que Vasco Morais Soares, arquitecto da Lello e Irmão, convidou António Fuentes Flores a visitar a reabilitação que tinha concretizado. Veio do México, pisou a obra histórica e não escondeu a satisfação com todo o encanto. E na língua espanhola comenta sem rodeios, as virtudes desta obra. “É um espaço bonito, muito bem feito que preserva e respeita o seu estilo original, com trabalho de madeira também fantástico nas prateleiras. A escada central iluminada e um vidro manchado magnífico, assim como as inovações tecnológicas do seu tempo como o carrinho de faixas para o transporte dos livros, são pormenores belos. Eu não me atreveria a mudar alguma coisa neste espaço”, refere.

A Lello e Irmão é considerada a livraria mais antiga de Portugal. Está no Porto desde 1881 e fica num prédio com vitrais, painéis, colunas e com uma escadaria no centro. “A principal, e extraordinária característica do edifício, é singular. Nunca se ouviu dizer que é parecido com…” é assim que José Manuel Lello, um dos responsáveis da livraria, começa a descrição deste mundo dos livros. Uma pegada deixa segredos, surpresas e tesouros infinitos no chão luminoso da Livraria Lello e Irmão.

Já conhece os turistas e consegue revelar algumas das reacções a este espaço. “Os turistas, além de ficarem espantados à entrada embora a conheçam de fotografias, e portanto querem conhecer o espaço, procuram livros sobre Portugal, o Douro, Vinho do Porto, Azulejos, guias  turísticos, literatura portuguesa traduzida na sua língua, e também recordações da livraria – brochura com a história, postais, etc”, conta.

Há quem diga ao ouvido, que se a Lello fosse uma pessoa, poderia ser um filósofo aristocrata ou até mesmo Salomé, segundo os desenhos de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde. Mas há quem vá mais longe e consiga relatar um dia completo desta mulher. Inês Botelho é autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005) e narra assim um dia desta mulher Lello: “Vinha todos os dias sentar-se na esplanada, a figura elegante, mas nunca totalmente correcta. Na roupa de corte irrepreensível, entre o clássico e o moderno, havia uma bainha dobrada, ou uma pequena nódoa de tinta-da-china, ou um ombro deformado pelo peso da pasta sobrelotada de livros, revistas, jornais.” E deixa correr a imaginação: “Ou então era o cabelo, bem penteado mas desgrenhado pelo vento, ou pelos dedos que o levantavam e enrodilhavam num gesto inconsciente. Ou talvez se limitasse a um excesso de perfume, um odor demasiado intenso a lavanda que lembrava prados junto a um castelo granítico após uma manhã de temporal, ou uma fragrância forte, a tender para o doce e a convocar noites quentes em cafés vagamente orientais.” Mas põe um travão na fantasia e termina: “Algo incerto, imprevisível. Pequenas preciosidades, como os berlindes, canetas, flores secas, caderninhos que numa ou noutra ocasião lhe caíam dos bolsos.”

E se um dia for editado algum livro sobre a história da livraria, Beatriz Pacheco Pereira escreveria assim no prefácio: “Nasceu neo-gótica como era a grande moda do séculoXIX, com ares de Walter Scott, com toques pré-rafaelitas. Depois assumiu-se local de saber e do livro, depois local de romagem nostálgica ou divertidamente turística. Há uma confluência mágica na Lello.”

In Jornal Publico, 8 Janeiro 2010



No Responses Yet to “A arquitectura do livro: Capítulo 104”

  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: