‘A COMPANHIA’: uma revelação de talentos frescos

03Ago10

Pequenos e graúdos, mas talentosos. Jovens e adolescentes, de olhos azuis ou castanhos. Homens e mulheres. Já faz cinco anos que ‘A COMPANHIA’ nasceu em Alverca e fez rodopiar algumas caras frescas. Um grupo de teatro cheio de vida e de talentos para mostrar.

Foi ainda antes do seminário que o Padre Luís Miguel criou uma relação com o teatro. Apareceu na cidade alverquensee alimentou o grupo da representação. “No liceu e na universidade, eu actuei e dirigi algumas peças, desde Shakespeare a pequenas comédias nas festas populares. Desde autores espanhóis contemporâneos a breves peças de Natal. Ao chegar a Alverca encontrei outros jovens com desejo de participar numa aventura deste tipo, e começámos a trabalhar juntos”, recorda.

'A COMPANHIA'

‘A Companhia’ tem mudado os rostos com o passar dos anos. Uns encaixam melhor numa peça, outros não conseguem tempo para os ensaios. São personalidades que vão trocando homogeneidade neste grupo. Mas o nome ficará para sempre. “O nome foi escolhido em grupo, precisamente para sublinhar o aspecto de sermos um grupo, uma companhia, pessoas que se juntavam para partilhar uma parte importante da própria vida, do tempo livre. No princípio, dentro da vida da Igreja; depois o grupo foi adquirindo novos elementos, muitos deles de fora da Igreja. Eu próprio deixei de participar nas peças dos dois últimos anos e hoje em dia, a Companhia são pessoas diferentes das que começaram. Mas partilham esse espírito de grupo”, explica o Pe. Luís Miguel.

Entre varandas vermelhas e pedras da calçada clara do Largo dos Pastorinhos, a Igreja dos Pastorinhos acolhe nas tardes de domingo os artistas que ensaiam a rigor a peça. Com pequenos atrasos e algumas faltas, o ensaio começa. Com 20 anos de idade, João Fernandes é um apaixonado pelas artes e pertence a esta ‘Companhia’. “Os ensaios são sempre imprevisíveis, porque num ano inteiro só existem dois ou três ensaios com todos. São sempre divertidíssimos, falamos sempre demais e interrompemos mil vezes a peça para comentarmos os desempenhos uns dos outros”, conta entre sorrisos.
A promoção da cultura, o acordar de talentos nos jovens, a expressão de valores e as preocupações das novas gerações são objectivos que este grupo enumera sem rodeios.

Cátia Reis viu o embrião da ‘Companhia’ desenvolver-se e não abandonou este grupo de teatro. “Vi a companhia surgir, e vejo o seu evoluir, acho que com o passar dos anos temos evoluído muito e isso tem se verificado tanto em nós próprios como no público, que tem adorado as nossas representações. É certo que houve alguns momentos que pensamos não ser capazes de fazer a peça mas no entanto conseguimos sempre com a nossa união e espírito de companheirismo levar avante os nossos objectivos, esperemos que daqui para a frente consigamos manter a nossa qualidade de espectáculo ou aumentar claro”, desabafa.

Recorde-se que em 2006 a ‘Companhia’ representou a trágico- comédia de Shakespeare, ‘Romeu e Julieta’. No ano seguinte, em 2007 fez-se notar com a peça de Óscar Wilde, ‘Marido Ideal’. 2008 foi o ano que não mostrou nada ao público de Alverca, por falta de elenco. Em 2009, a ‘Revista P’Arte Tudo’ fez soltar gargalhadas por toda a sala durante vários minutos.

‘Café Centauro’ foi a peça escolhida para ser representada este ano. Foi aplaudida por mais de 80 pessoas no espaço cegada, junto ao Centro Comercial Parque, em Alverca, nos dias 19 e 20 de Junho. Amante do teatro, João Fernandes descobriu esta peça de Norbeto d’Ávila na biblioteca. No palco veste a pele do Sr. Benavente. “A personagem do Benavente não é das mais interessantes, simplesmente funciona como um elo de ligação de todas as outras. Alguém que está sempre presente para puxar conversa às outras personagens que protagonizam as cenas. Sou uma pessoa muito reservada, mas dentro de mim está sempre uma grande revolta com o mundo e encontrei no Benavente uma maneira de criar um segundo João, que fosse um revoltado e que falasse mal de tudo,” revela.

No típico café de província ‘Café Centauro’, entre bicas e conversas, assiste-se à convivência do sempre pontual proprietário do café, Sr. Benavente, e do distraído empregado, Tolentino. As divertidas intrigas entre os clientes não escapam e são ingredientes fundamentais nesta peça. Aqui é demonstrada uma realidade social que se pode passar em qualquer café de uma pequena cidade portuguesa.

As luzes apagam-se. O pano fecha-se e a peça termina. Os aplausos fazem-se ouvir fora por toda a sala. Num círculo bem fechado e ainda com o guarda-roupa teatral, os artistas colocam a voz em conversas paralelas. Com uma boa disposição inesgotável, Cláudia Neto interpreta Pilar na peça, e tira dúvidas para quem as tenha: “Nós ensaiamos no auditório da Igreja dos Pastorinhos, mas as nossas peças não têm nada a ver com a igreja. São peças teatrais adaptadas por nós. Tentamos adequar cada personagem à personalidade de cada um.”

Neste grupo não há maquilhadora nem cabeleireira própria. Cada um traz o que tem no guarda – fatos de casa. Entre todos verificam as melhores combinações entre saias e calças, camisas e casacos, sapatos e sapatilhas.

Café Centauro

Aqui não há bilheteira, nem cobrador de entradas. Todos entram para assistir ao espectáculo, sem ter que tirar uma moeda do bolso. No final, a escolha da cor da moeda é livre e sem perguntas. João Fernandes decifra este conceito: “Nós acreditamos no livre acesso à cultura. Não conseguimos avaliar o nosso trabalho a ponto de lhe colocarmos um preço. Assim todas as pessoas vão ver, e consoante as possibilidades ou a opinião do nosso trabalho, cada um dá o que puder ou quiser.”

Há pessoas no grupo que se destacam pelo seu talento e pela sua capacidade de gerir actores e colaboradores. Mas todos se unem e são aplaudidos sempre que sobem ao palco.

Gonçalo Plácido entrou nesta peça em substituição de um membro que desistiu a meio dos ensaios. Mas abraçou o espírito deste grupo e fez soltar longas gargalhadas por toda a plateia com a sua prestação. “O Tolentino é um empregado muito desajeitado. Tem uma relação de amor – ódio com o patrão, embora seja mais vezes ódio do que amor. É um empregado honesto mas inocente e pouco trabalhador”, assim descreve a sua caricata personagem.

Já para Cátia Reis, o objectivo da ‘Companhia’ foi perder o medo do público. No entanto, confessa que: “No inicio entrei porque queria perder o medo que tenho de estar em público, mas depois fui – me apercebendo ao longo dos anos que estou ali porque gosto de fazer teatro, gosto de ser alguém que não eu, gosto da sensação de estar em frente de todas aquelas pessoas, e depois os laços de amizade que criei, somos um grupo unido, é claro que também temos as nossas divergências, mas sempre chegamos a um consenso e é isso que nos faz crescer como pessoas, e como actores, criticamos, corrigimos, criamos, improvisamos, fazemos de tudo, temos papel de actores e encenadores muitas vezes, hoje admito que gosto de teatro, na realidade estive mesmo para desistir porque trabalho e estudos é muitas vezes complicado conciliar tudo, mas quando se gosta do que se faz tudo se consegue, e para além disso com o teatro consigo distrair-me dar folga ao meu “eu” e em vez dele dar lugar a uma outra pessoa completamente oposta a mim.”

A vontade de ir mais longe lê-se nos olhos de cada artista da ‘Companhia’ e há quem acredite nesta saída de Alverca e numa expansão mais longe. “Creio que poderia sair da cidade porque há talento em muitos destes jovens. E o teatro, apesar de contar com poucos apoios, estruturas e divulgação, ainda hoje tem muita capacidade de apelar ao espectador. Muito mais do que um filme ou a televisão. Todos podemos dar sempre mais, em qualquer momento e circunstância da nossa vida. É preciso ter bons mestres a quem seguir e de quem aprender. É isto que desejo para a Companhia”, confessa o Pe. Luís Miguel.

A paixão do teatro observa-se no espírito desta ‘Companhia’. “O teatro é minha droga e minha doença está tão avançada que meu tratamento dever ser da mais alta qualidade”, conclui Cátia Reis.

In Vida Ribatejana, 8 de Setembro 2010.



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