Retalhos da Velha Guarda da Broadway Portuguesa

21Jul10

O Parque Mayer está a atravessar uma longa crise de degradação. Do colorido ao cinzento. Entrámos no Parque e as histórias deste espaço foram mais que uma mão cheia. Contadas de formas diferentes, as lembranças estão gravadas em cada um.

A entrada no Parque Mayer

Desce-se a Avenida da Liberdade. Na Travessa do Salitre avista-se de perto, agora, o parque de estacionamento público. Um parque que foi em tempos para muitos, a ‘Broadway portuguesa’. O ponto de passagem que foi o Parque Mayer recheado de vida e animação. O barulho constante das inúmeras actividades alegres deu lugar ao silêncio triste. O palrar e o bater das asas dos pássaros faz-se notar pelo caminho sublime, onde agora os automóveis ocupam os seus lugares, traçados a branco no alcatrão. Um simples parque de diversões para uns e uma casa para outros. As memórias são efémeras e incalculáveis. Comerciantes, artistas, trabalhadores recordam com alegria os momentos vividos neste parque de diversões. Contudo, o sorriso desvanece quando a imagem de vazio e degradação vem à cabeça. ‘Maria Vitória’, ‘Variedades’, ‘ABC’, ‘Capitólio’ eram os quatro teatros que animavam as noites Lisboetas.

‘Paladar, Paladar’, um número no palco do teatro memorável, mostrado a muitos e relembrado por outros. Uma cesta de rebuçados e um refrão. Entre sorrisos, Anita Guerreiro recorda esta cena. “A rábula antes da cantiga era toda dedicada a Salazar e então lá vinha as suas pancadinhas do costume. E no estribilho, eu trazia uma cestinha com rebuçados e era assim: Paladar, Paladar.. eu tirava os rebuçados. Não era preciso dizer, que o público sabia quem era. Porque o que está escondido é que é o melhor. E antigamente, o teatro de revista, era um teatro realmente de crítica.” E vai mais longe, de voz mais baixa: “E hoje não se pode. Primeiro, porque na televisão temos diariamente o que se passa. Nos jornais também. Antigamente não o tínhamos em lado nenhum. Era tudo muito camuflado. E, o público ia ao teatro para ouvir as piadas sobre as políticas e sobre as coisas que se passavam no País. Tinha muito mais sabor.”

Criado no início dos “loucos anos 20” com a ambição de ser um pólo teatral, o Parque Mayer impôs-se como centro do teatro de Revista e feira popular moderna, sobreviveu à censura de Salazar e Caetano, à rádio e ao cinema, ao futebol, à televisão e às telenovelas. Mas agora, atravessa uma longa crise de degradação. Uma tristeza para todos os que viveram a infância nesta feira tão rica de animação e alegria.

José Raposo é actor e viveu muitos anos nos palcos dos teatros da Revista. “O Parque Mayer é um pátio alfacinha com quatro teatros. É uma coisa linda, maravilhosa. Entristece-me muito, porque eu vivi aqui os maiores momentos na minha carreira como actor. Os meus filhos cresceram aqui, nos subpalcos dos teatros. Tenho uma ligação muito forte com este espaço”, recorda.

Entre as diversões que passaram no Parque Mayer destacam-se as “barracas de tiros”, os bailes (de fim-de-semana ou de Carnaval), os circos Royal, El Dorado e Luftman, as “barracas” do “Porto de Lisboa” (miniatura animada da Ribeira) ou de “fenómenos” como a “mulher transparente” e a “mulher-sereia” e as pulgas amestradas, o labirinto e a roleta diabólica, a laranjinha, as “variedades”, o jogo do quino, o jogo clandestino (para os mais aventureiros), os carrosséis e os fantoches, o Pavilhão Infantil, os “carrinhos de choque”, a patinagem, os combates de boxe, a luta greco-romana e a luta livre.

A actriz Vera Mónica cresceu no Parque Mayer e já conta com algumas memórias deste espaço tão memorável. “Os momentos que mais me marcaram foram a minha estreia e o meu regresso. Após oito anos fora, regressei a um Parque Mayer que eu não reconheci. A estreia porque era tudo. O Parque Mayer desde a Avenida da Liberdade era alegria, luzes e música. Agora é uma tristeza, é o que se vê. Só o Maria Vitória é que tem luzes e alegria. Aliás à noite, a bilheteira é o Parque Mayer”, conta a actriz de ‘Agarra que é Honesto’.

Os restaurantes animavam as tardes e as noites. Os cheiros cruzavam-se no ar. Tanto as especialidades da casa, como as bifanas saiam para a mesa, num abrir e fechar de olhos. Artistas, companheiros, amigos, todos se sentavam à mesa, naquela que foi para muitos ‘a catedral da Revista’. Carlos Cunha, protagonista de diferentes Revistas passou por todos os estabelecimentos do Parque Mayer, mas estimava um em particular. “Frequentava um restaurante que era muito engraçado que era de três irmãs e havia um irmão também que estava ligado ao cinema. E elas é que serviam, faziam a comida. Aquilo era como se fosse a nossa casa. Era uma comida caseira mesmo. Era a Mimi, e o restaurante chamava-se O Retiro da Amadora. Isso é que era um restaurante”, conta. E recorda ainda com água na boca alguns sabores memoráveis. “Era o mais engraçado, onde se comia extraordinariamente bem e se pagava pouco. Era a canjinha. Era o Romeu e Julieta, que era com marmelada, queijo e banana.”

A nova geração não desliga do teatro. Uns mais que outros, mas há sempre um certo tipo de juventude que abraça o teatro e em especial a Revista. Uns ficam na plateia a aplaudir e outros deixam-se levar pelo único palco ainda de pé no Parque Mayer. David Pinto faz parte do elenco de bailarinos de ‘Agarra que é Honesto’, em cena no Teatro Maria Vitória e confessa: “Gostava de ter vivido na altura em que o Parque Mayer tinha os quatro teatros abertos. Nós chegamos a ver pessoas de idade, com as lágrimas nos olhos, a dizerem o que isto era e o que isto é.” E acrescenta: “Agora ver estes espaços aqui todos abandonados é um bocado triste, mas dá-me uma certa curiosidade para tentar sentir aquilo que as pessoas sentem quando vêm ver, porque deve ter sido uma sensação inexplicável.”

Na peça que está em cena do Teatro Maria Vitória, ‘Agarra, que é Honesto!” o público consegue ver caras novas no palco. Joana Alvarenga é principiante no teatro de Revista, mas já encontrou palavras para definir este género. “Este tipo de teatro é muito completo. Temos de saber cantar, dançar, representar, improvisar muito bem e ter uma ligação muito grande com o público. Acho que temos de ser actores muito completos para fazer teatro de Revista.”

Atrás do antigo Capitólio, entre espaços vazios, longos e paredes coloridas, encontra-se ‘A Gina’, um restaurante com comida típica portuguesa. De cabelo grisalho e de tons acinzentados, Gina é proprietária do único restaurante em funcionamento no Parque Mayer. Peixe fresco e carne fresca. Sobem-se os degraus. O cheiro do bacalhau à lagareira e do cozido à portuguesa sente-se no ar.

Com nostalgia, Gina recorda os tempos do Parque animado. “As pessoas vinham muito para aqui porque não havia as televisões. Havia a televisão a preto e branco, o primeiro e o segundo canal. De resto, não havia mais nada. E, a esta hora, o Parque Mayer estava cheio. Eu tinha aqui este restaurante e tinha outro ligado ao Maria Vitória. Muitas vezes, aos domingos nem se conseguia passar”, recapitula entusiasmada.

São momentos que já não regressam. Agora, o movimento traduz-se no passo acelerado dos donos dos veículos que estão estacionados no parque de estacionamento público. A ‘Broadway Portuguesa’ desfez-se, mas ficam as recordações no álbum da memória de cada um.

José Raposo apela à juventude. “Espero que as gerações mais jovens se revoltem e que, com novos políticos, novas ideias e novas cabeças e modifiquem este sistema. Tenho um desgosto enorme que este espaço não seja restaurado. Sempre achei que a resolução para o Parque Mayer era restaurar estes quatro teatros, dar vida novamente aos restaurantes, sem o fazer tudo de novo.”

Hélder Freire Costa, produtor e empresário do Teatro Maria Vitória não baixa os braços e, continua a lançar Revistas para o público. “Aqui fez-se todas as formas de teatro, mas aquele que de facto se impôs, sempre, foi o teatro de Revista. As pessoas muitas vezes vêm sem saber qual é o nome da peça, ou o elenco que cá está. Embora nós estriemos caras no teatro de Revista, são pessoas com determinado talento, com uma determinada importância no panorama artístico português e portanto nunca desiludimos o nosso público, daí o público continuar a vir ao Maria Vitória”, conta.

Por fim, e acima de tudo, por lá passou e continua a passar o teatro, a grande singularidade deste Parque. Uma família que não será esquecida, mas recordada por todos.

É cada vez mais raro ouvir-se música no imenso estacionamento em que se transformou o Parque Mayer. Os tempos são de silêncio e de apreensão. Mas nos dias de espectáculo, o Parque Mayer renasce com as suas pedras no caminho, mas rejuvenesce. O silêncio habitual é quebrado e as luzes da bilheteira começam a piscar. Hoje é noite de Revista.

Uma reportagem para a disciplina de Novas Narrativas do Média, integrada no mestrado de jornalismo. Maio 2010



2 Responses to “Retalhos da Velha Guarda da Broadway Portuguesa”

  1. 1 Andreia

    Um tocante artigo mesmo para quem não viveu os tempos áureos deste espaço, mas que sente uma profunda tristeza pelo descaso a que condenaram o velo Parque Mayer. É de louvar que ainda haja quem se preocupe o suficiente para discutir o assunto.

  2. 2 Andreia

    Um tocante artigo mesmo para quem não viveu os tempos áureos deste espaço, mas que sente uma profunda tristeza pelo descaso a que condenaram o velho Parque Mayer. É de louvar que ainda haja quem se preocupe o suficiente para discutir o assunto.


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