Alhandra poderá voltar a ter teatro

21Jul10

CÂMARA ESTUDA NOVO PROJECTO DE RECUPERAÇÃO

Há mais de cem anos que o edifício junto ao coreto do jardim da praça Soeiro Pereira Gomes, em Alhandra está de pé. Deixou de ter animação e cor. Agora, o castanho apodera-se da fachada do antigo Teatro Salvador Marques e os que passam por ali, com mais ou menos lembranças reparam no pálido e triste abandono.

Alhandra. Uma vila de sempre para uns, um ponto de passagem para outros. Aqui, sente-se a frescura da natureza e o cheiro do Rio Tejo.

Rua Miguel Bombarda. Uma rua comprida, onde todos os dias passam veículos de todas as cores e onde estaciona a escola de Vela. No café da Sociedade Euterpe Alhandrense, os senhores de longa idade trocam ideias.

Do lado esquerdo deste espaço lúdico, entre moradias escuras, sentam-se agora lado a lado, os restos do tão brilhante que foi, o Teatro Salvador Marques.

Trocou a Damaia por Alhandra, mas sempre que passa em frente deste espaço agora abandonado, Andreia Maia pára e observa com atenção. Ligada à área da dança e da arqueologia consegue compreender este abandono. “Nos meios mais pequenos acho que é bastante usual este tipo de situações, pois durante muito tempo a maior parte das pessoas preferiram deslocar-se para grandes centros comerciais onde podiam ter uma maior disponibilidade de serviços. Tal situação, é no entanto, na minha opinião de moradora e bailarina, uma grande perda, e penso que felizmente, nos dias de hoje a população em geral preocupa-se mais com a qualidade de vida, procurando por isso “viver” o local onde vivem”, confessa.

Foi um ex-libris enquanto teve as portas abertas. Com uma arquitectura de estilo clássico e de raiz italiana. A sala de artista multiplicava o aspecto do antigo Teatro Apolo em Lisboa. Tinha uma estrutura interior que deixava os espectadores de boca aberta. Era composta por um balcão, uma plateia e duas ordens de camarotes, dispondo, igualmente, de um restaurante e de um salão nobre. A plateia sentava 400 pessoas e os camarotes alojavam 30. As pessoas deixaram de frequentar o teatro e o cine-teatro. Na altura, o vídeo apoderou-se das preferências dos cidadãos e as portas deste espaço foram obrigada a fechar. A bilheteira iluminada e cheia de cor deu lugar aos meros tijolos empilhados. O frontão que coroava todo o conjunto do edifício desapareceu com o terramoto de 1909. A placa onde se lia ao longe, a palavra cinema já tem ferrugem, perdeu a cor e a leitura.

Salvador Marques foi um dramaturgo que cresceu e viveu na vila alhandrense. ‘Comissário de Polícia’ foi a primeira comédia a estrear o Teatro da Rua Miguel Bombarda. Dirigida por Gervásio Lobato e representada pela Companhia de Teatro Gimnásio de Lisboa, onde o actor Valle vestiu a pele do protagonista. No dia 10 de Junho de 1905 o teatro recebeu os primeiros aplausos.

Tinha nove anos quando subiu as escadas deste palco pela primeira vez, com a peça ‘Os rapazes são o diabo’. Agora Maria Amélia tem 71 anos, mas ainda se lembra da magia deste espaço. “Era um grande palco. O senhor Reis dizia que era uma sala faz lembrar o S. Carlos em miniatura. Era uma sala muito bonita. Ainda se nota, mas já tiraram o candeeiro, tiraram o piano cá em baixo, disseram que era para reabilitar. Tinham umas estátuas muito bonitas, depois aquilo caiu e guardaram. Puseram os tijolos cá em baixo a tapar, para as pessoas não se meterem lá dentro. E levaram também o pano que subia”, recorda entre sorrisos.

A valorosa peça “Os Campinos” de Salvador Marques, foi apresentada pela primeira vez nesta sala de muita beleza, e representada por amadores de Alhandra, a 23 de Março de 1913, em benefício dos Bombeiros Voluntários desta Vila.

Na década de 40 o Teatro transformou-se em Cine-Teatro Alhandrense, passando a exibir apenas cinema, incluindo as grandes produções nacionais.

Portas fechadas desde 1984

Entre 1964 e 1965 a cabo da Lisboa Filmes, o edifício sofreu uma remodelação que sacrificou a sua antiga fachada.As portas foram fechadas ‘para descanso do pessoal’ em 1984 e nunca mais voltaram a ser abertas.

Os apelos dos cidadãos são alguns, mas a espera alonga-se sem fim à vista. As sugestões de restituição espalham-se nos sussurros de cada esquina. “Seria bastante interessante reabilitar o edifício e torná-lo todo num pólo dinâmico com actividades ligadas a várias áreas, nomeadamente, dança, teatro, música, cinema.  A junta poderia por exemplo, nos fins – de – semana realizar sessões de cinema durante a tarde e noite, com filmes direccionados para os mais pequenotes e para os adultos. Poderia também tentar com grupos de dança e teatro da zona (e não só)  dando a conhecer trabalhos bastante interessantes”, sugere Andreia Maia, bailarina e residente em Alhandra.

Recuperação em estudo
Espaço de artes com teatro

As ideias do povo são mais que uma mão cheia. Todas se cruzam de uma maneira, ou de outra. Mas um projecto já está traçado pelo vereador João de Carvalho.

A colecção de informação especializada em artes não será esquecida neste plano. Aqui vai haver espaço para os amantes de vários tipos de arte. “Irá ser feita uma pequena biblioteca com um espaço de restauração, para criar alguma vida neste espaço. Uma biblioteca temática sobre artes: teatro, cinema, pintura, etc.”, expõe o vereador da cultura João de Carvalho.

As medidas estão a ser calculadas. Os estudos de recuperação do espaço estão a prosseguir. “Nós podemos recuperar muita coisa, por isso nós podemos fazer isto com tempo e com cabeça, sem destruir um património que é único do concelho, porque nós não temos mais nenhum teatro aqui. Poderá ser a sala de visitas da câmara. Estamos a tentar recuperar as telas, o pano de boca que era muito bonito, os candeeiros, os corredores. Quero só fazer teatro, não quero cinema”, avança o vereador.

Andreia Maia acredita nesta reabilitação e alega as suas beneficências. “Primeiro porque apoiar a cultura é sempre importante, e infelizmente tal raramente acontece. Segundo iria, sem dúvida, dinamizar a zona de Alhandra, que manteria o seu aspecto rural. E ao mesmo tempo seria uma vila moderna com actividades para os seus habitantes, fazendo com que estes não sintam necessidade de se deslocarem para os grandes centros urbanos, como Lisboa”, explica.

A centenária sala de espectáculos

Oito anos é o tempo previsto de recuperação deste teatro. A esperança de voltar a ver o teatro da Rua Miguel Bombarda em Alhandra, nunca m

orre. Os momentos de luz e alegria poderão voltar. A plateia voltará a estar cheia e na bilheteira estará uma multidão para

comprar o acesso aos espectáculos.

Foi um marco para os habitantes de Alhandra e para o concelho de Vila Franca de Xira. Mas há quem vá mais longe. “Foi um dos principais teatros da corda de tournées do teatro português”, conclui o vereador João de Carvalho.

Por Susana Cruto

In Vida Ribatejana, 7 Julho de 2010.



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