Um cineasta livre de metáforas

11Jun10

Anseia pela descoberta. Desde sempre a grande tela foi o seu principal cume. Perfeccionismo é uma das suas armas. Um homem alto que carrega um rosto sério e respeitoso. Vira costas à mentira e sorri à honestidade. De uma família humilde, acolhedora e por onde passa, deixa o abraço das fortes amizades e as pegadas do Leonel Vieira.

“Um realizador directo, objectivo, prático, às vezes até um pouco duro”, é assim que Carla Chambel descreve o cineasta Leonel Vieira. A actriz teve a oportunidade de trabalhar com o realizador no primeiro dia de rodagem de “O Julgamento”. Nunca é um dia fácil, dado que é o arranque de toda a máquina, não houve muitas oportunidades para se conhecerem. Contudo, conta: “ No fundo, é bom quando o actor procura resposta no realizador para orientar a sua personagem”.

Uma cidade ibérica, cheia de partidas e chegadas. Leonel Vieira nasceu em Miranda do Douro, em 1969, filho de mãe portuguesa e pai espanhol. Desde muito cedo começou a desenhar e dedicou-se à pintura aos 15 anos. Com 17, foi para a cidade do Porto, onde frequentou durante três anos o curso de Design. Campos malhados de verde. Salpicos de tons amarelos a fazer contraste. O planalto Mirandês alonga-se. Poucos tons mas definidos. As folhas dos sobreiros e dos carrascos desafiam o tempo, o seu verde – escuro é constante. Um rebanho aproxima-se. A água que corre, apressada, nestes vales não quis subir ao Planalto e com a pouca que vem do céu, ditou que desde sempre aqui se praticasse uma agricultura extensiva de sequeiro. Assim é Miranda do Douro. O isolamento contribui para que se criassem e se mantivessem, nesta região, hábitos e costumes que fazem dela uma das regiões mais ricas de Portugal. Podia-se falar da língua, do artesanato, da música, das danças, da riqueza natural, das pessoas e da gastronomia. A cozinha é o centro da casa no nordeste transmontano. A chamada “Posta Mirandesa”, as cascas com bulho, as migas (sopas) da segada, a salada de merugem ou regato, o folar com carne, os doces económicos, as rosquilhas é tudo um conjunto riquíssimo e variado de manjares vindos desta terra sã e afável. Irmã de Leonel, Avelina Vieira declara: “O Leonel adora a gastronomia transmontana, e como nós chamamos aqui, é uma pessoa de bom garfo, e nunca esquece as suas raízes, dando sempre que pode a sua escapadela até à terra onde o viu nascer e crescer.”

Aos 20 anos mudou-se para Madrid onde fez o Curso de Realização Cinematográfica na Escola Superior de Artes e Espectáculos TAI, no início da década de 90. Um realizador tecnicamente muito completo e imaginativo, desde o seu primeiro filme. A qualidade técnica, a “manufactura”, dos filmes, sempre foi uma das suas grandes preocupações. Regressou a Portugal e, com apenas 26 anos, realizou a sua primeira longa metragem: “A sombra dos abutres”. Com o segundo filme, “Zona J”, conseguiu um dos maiores êxitos do cinema português: foi o filme português com maior bilheteira em 1998 e o quarto maior êxito de sempre. Em 2001, realizou na Amazónia brasileira uma grande produção, “A Selva,”também o maior êxito de público em 2002. Em Outubro de 2007 estreou o filme “Julgamento” e começou a rodar o filme “Arte de Roubar”. A sua evolução observa-se no trabalho com os actores, desde a selecção à sua direcção. Dedicação, frontalidade, intolerância com a incompetência são algumas das características admitidas pelo próprio realizador, com as quais muitos não conseguem ter estômago ou paciência para lidar.

Leonel Vieira pertence à mais recente geração do cinema português, pretendendo para este um padrão mais internacional, mais livre das metáforas e do hermetismo que caracterizam grande parte dos filmes produzidos nos últimos trinta anos.

Os amigos vêem-no como “ uma pessoa com uma inteligência fora do vulgar, e apesar de por vezes demonstrar ser uma pessoa muito “rigorosa”, tem um lado muito meigo. É muito profissional naquilo que faz e tenta levar as pessoas com quem trabalha a darem o melhor de si. Poderemos dizer que é uma pessoa perfeccionista. É muito perspicaz e tem um apurado sentido de humor. É uma pessoa muito acessível, e um excelente conversador.”

A maior parte dos realizadores que saem de escolas de cinema procuram um cinema mais de autor, mais rebuscado. Leonel Vieira desde sempre se mostrou interessado numa narrativa que pudesse ser compreendida por todos. Quando optou por não estudar cinema em Portugal, já fez parte dessa escolha. Não foi só a língua. Foi o tipo de escola, o curriculum, as disciplinas, o sistema e o formato que lhe interessavam. Espanha é uma espécie de oásis. Adoptou uma visão particular do método americano. É quase um plágio do sistema curricular americano de cinema, adaptado um pouco a uma cultura europeia, ibérica.

Para Leonel Vieira esse método produz muitos resultados positivos. Educado com programas de cinema, interessado por publicações de cinema, o realizador sempre realçou as suas origens: “Nasci na mistura de duas culturas. Adoro ter uma cultura ibérica e não uma cultura portuguesa.” Miranda do Douro é hoje conhecida, sobretudo, pelo seu folclore colorido e animado, onde sobressaem os Pauliteiros, com o seu trajo típico de saias. Aqui aprecia-se a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita-de-foles, uma herança da ocupação celta da região na Idade do Ferro. Entre pedras e pedrinhas toma-se atenção e repara-se no “mirandês”, uma língua que só se fala nesta região.

A maneira de trabalhar de Leonel Vieira assenta num lema: estar bem preparado. Estando bem preparado, e sabendo exactamente o que quer conseguir, tem sempre a possibilidade de experimentar e fazer o oposto, sem ficar perdido. “O Leonel é uma pessoa muito exigente, mas que para poder exigir mais dos seus colaboradores também lhes dá muita liberdade. Essas duas características juntas criam um ambiente de trabalho que é ao mesmo tempo estimulante e satisfatório”, diz João Nunes, que trabalhou na ficção de Leonel Vieira “Conexão”. “Não quer isto dizer que estamos sempre de acordo mas, quando não estamos, as razões de desacordo são sempre claras e fáceis de compreender, e logo de ultrapassar”.

Durante o curso de realização de cinema em Madrid, fez várias curtas-metragens e trabalhou em duas produções profissionais como assistente de decoração. Hoje, não se arrepende de nada. Regressou a Portugal e começou a escrever uma longa-metragem na linha do “Zona J”, que teria como cenário principal, a cidade do Porto. Era uma história de racismo, mas muito dura, sem contemplações, um pouco ácida. Nunca acabou o guião. Naquela época concorreu ao IPACA (Instituto Português de Arte Cinematográfica e Audiovisual) para financiamento de escrita de argumento, mas não o financiaram. Iniciou outro argumento que concluiu e concorreu à grande produção. Em 1994, conseguiu finalmente ser produtor para “A Sombra dos Abutres.” E aí, caiu na grande capital, Lisboa. Não conhecia ninguém, muito menos ligado ao cinema. Um realizador, que já mostrou muito do que vale e que continua a surpreender os portugueses, com as suas películas.

A irmã lida desde sempre com o cineasta e desvenda alguns segredos. “É uma pessoa muito vaidosa, no bom sentido e como qualquer pessoa que se preze gosta de vestir bem. Aproveita cada minuto da vida, e não gosta dos chamados “espaços mortos” do dia. Desde miúdo foi sempre alguém muito querido, com grandes amizades, nunca esquecendo estas”, conta.

Um realizador acarinhado por uns e criticado por outros, mas que não desiste das capacidades que Portugal tem para produzir um bom filme.

O Leonel Vieira ainda não deu ao cinema português nem metade do que tem para dar”, diz João Nunes.

Anúncios


No Responses Yet to “Um cineasta livre de metáforas”

  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: