Nem todos têm o mesmo encanto. Uns vivem para a música, outros sobrevivem a pintar ou a escrever, mas há ainda uns seres humanos que se deslumbram com feitiço do cinema. A grande tela com projeções de imagens.

E foi em Paris que esta grande sétima arte fez-se notar pela primeira vez, com os Irmãos Lumière no Salão Grand Café. Aqui o pai dos pequenos organizou no final do ano de 1895 (precisando a data de 28 de Novembro) a primeira exibição paga de filmes. O evento causou furor nos mais de 30 espectadores. Foi a maior notícia nos jornais da época e o novo ano começou com a conquista do mundo, desta nova arte que fez nascer uma indústria multibilionária sem fim à vista.

 

Este sucesso foi crescendo entre países e por todo o mundo. E com ele criou-se a necessidade de criticar, de escrever, de expor opiniões, de falar sobre os efeitos do processo cinematográfico. Papel e caneta na mão. Por uns anos. Mas anos mais recentes, um teclado, um monitor e uma impressora tornaram o acesso às publicações sobre cinema mais fácil.

Em 1911 foi publicada a primeira edição popular cinematográfica nos Estados Unidos: Motion Picture Story Magazine.

Em Portugal, onde a cultura não pára de crescer, a Prémiere, a primeira revista sobre este sublime sucesso foi publicada em Novembro de 1999.

Uma revista cheia de vida, de imagem, de conteúdos informativos e acima de tudo que esteve sempre em cima do acontecimento. Mantinha qualquer fanático do cinema, atualizado sobre qualquer género de filme. Seja romance, ação, drama, ficção científica, a Prémiere tinha um cantinho especial para cada membro do público assíduo na cadeira da grande tela.
Infelizmente parece que desta vez não é simplesmente uma descontinuidade como em 2007 aconteceu. A primeira edição gerida por José Vieira Mendes esteve a quatro edições de celebrar a 100ª edição, mas não foi possível. E em Outubro foi lançada a última publicação. Mas passado precisamente um ano, na primeira semana do mesmo mês a Prémiere volta ao seu lugar nas bancas das papelarias. Contudo, chegou ao fim. Esta segunda série liderada pelo grupo Multipublicações teve 39 números e chegou ao fim em Dezembro de 2011.

Apenas é resultado da crise que atacou Portugal e que é um autêntico beco sem saída.

Fico agora na esperança que seja apenas outra fase de descontinuidade, porque Portugal necessita da Prémiere, precisa de cinema não só na tela, mas sim nas bancas da escrita. Porque é necessário ler em papel sobre esta grande sétima arte. Resta-me ainda agradecer a todos os que fizeram parte da família Premiere. Aprendi, ri-me bastante e apurei o meu sentido crítico do cinema. No fundo aprendi a olhar para os filmes de outra perspetiva. E a ter sempre um frenesim no início de cada mês, para saber quais seriam os destaques cinematográficos. A curiosidade subia à medida que chegava à papelaria e me diziam: mais uns dias…ou ‘este mês está um bocadinho atrasada.’ Sempre acreditei e nunca duvidei que este atraso mais tarde daria azo a muita emoção na leitura das páginas criativas.

 

Até já  Prémiere. Volta breve.

 


Até quando se pode ter amor à camisola? E até onde se pode ir para salvar pessoas de trás das grades, mesmo sendo culpadas? Que argumentos não falham na cadeira do réu? Quais as melhores cartas para ganhar o jogo da sobrevivência?

Depois de partilhar cenas românticas com Katie Hudson em ‘Como perder um homem em 10 dias’, mergulhou nas ondas de ‘Surfer, Dude’ com Alexie Gilmore e recentemente partilhou a vida amorosa com Jennifer Garner em ‘As Minhas Adoráveis ex-Namoradas’. Resolveu deixar os ingredientes das comédias românticas e centrar-se num palco mais dramático e perigoso. Matthew McConaughey fez uma pausa nos corações partidos e decidiu dar vida a um advogado competente e atento à realidade.
Em ‘Cliente de Risco’, McConaughe é posto à prova inúmeras vezes, pelo jovem actor Ryan Phillippe que na história veste a pele de Louis Roulet, o cliente mais perigoso que Mick (McConaughe) teve até aos dias de hoje. Como companheiro de investigação, Mick partilha todas as suas ideias e suposições com Frank (William H.Macy). William H.Macy faz um papel extraordinário que nos faz recordar os velhos tempos do Dr. David Morgenstern, na série televisiva ‘ER’ ou até mesmo do memorável Jurassic Park III, onde vestiu a rigor a pele do curioso Paul Kirby.

Há participações que são essenciais realçar, como é o caso de Marisa Tomei que interpreta uma investigadora criminal, Maggie McPherson. Sempre atenta e bem atenta a cada acto. A sua participação é atraente e relembra-nos por que é que ganhou tantos óscares, um deles com o filme ‘The Wrestler’.

O filme realizado por Brad Furman conta a história de Mickey Haller. Um advogado criminal de Los Angeles, que usa o seu carro como escritório. Durante toda a sua vida, a rotina de trabalho de Haller passava por atender clientes e defender pequenas causas, até ao dia em que lhe surge o grande desafio da sua carreira: defender um playboy de Beverly Hills acusado de violação e tentativa de homicídio. Mas o que aparentemente parecia um caso simples de resolver, rapidamente se transforma numa perigosa brincadeira de sobrevivência.
Os argumentistas John Romano e Michael Connelly juntaram-se e deram azo a um guião cheio de suspense e acção.
A juntar aos diálogos não poderia ficar atrás, toda a fotografia e filmagens bastante eficazes no tempo ideal. Elas são rápidas, mas com a velocidade adequada para que nós conseguíamos entrar na adrenalina do caso de Louis Roulet. As imagens são atraentes e expressivas e os carros clássicos estão na mira deste filme. Vimos Mustangs, GTOs e até mesmo Chargers, o que cria comentários por todo o público.


Uma história de encantar, onde os elefantes nos deixam a pensar.
O drama é baseado no best-seller de Sara Gruen e já foi traduzido para mais de 40 idiomas. Na época do lançamento, em 2006, esteve na lista dos mais vendidos do New York Time. Com a recente chegada do filme voltou a ocupar a mesma posição.

Depois de ‘Constantine’, ‘I am Legend’, Francis Lawrence arriscou no drama. E foi um bom risco. A história tem por base a Grande Depressão (1929 – 1936). O protagonismo centra-se em JacobJankowski (Robert Pattinson), um simples estudante de veterinária que devido à crescente crise económica é obrigado a abandonar os estudos.Com as aulas práticas com animais, Jacob aproveita para subir ao comboio que lhe vai mudar radicalmente a vida e ensinar-lhe tudo o que deixou para trás. Associa-se ao Circo dos Irmãos Benzini, um circo ambulante em decadência onde conhece Marlena (Reese Witherspoon), um dos maiores atractivos femininos do show e mulher do carismático August (Christoph Waltz), o instável director do circo.

É curioso vermos a estrela de Legalmente Loira, a brilhar em cima de um elefante e encantar o coração de Jacob Jankowski. As interpretações são bem conseguidas e é interessante ver as cenas de Christoph Waltz. Depois de ter interpretado o papel do exigente Hans Landan, em ‘Inglorius Basterd’, Waltz dá agora a vida a August, um homem igualmente rigoroso, mas que deixa-nos atentos a todos os minutos da sua prestação. Cria suspense.

Antes de Robert Pattinson ser escolhido para viver Jacob Jankowski, os actores Channing Tatum, Andrew Garfield e Emile Hirsch fizeram testes para o papel. Mas há outra curiosidade, o actor Sean Penn chegou a ser chamado para o filme, mas desistiu do projecto e Christoph Waltz entrou no seu lugar.

É de realçar a fotografia fantástica ao longo de todo o filme. A banda sonora encaixa-se na perfeição. E não podemos deixar de focar a direcção de arte que brilhou com a reconstrução dos elementos cénicos dos circos dos anos 30.

Um filme com momentos encantadores, assustadores e acima de tudo, curiosos. Um filme que não cansa e que deixa o espectador colado ao ecrã até ao último minuto. Apesar de não ser o foco do filme, alguns temas e importantes são abordados, como o abuso contra animais, a dominação e violência contra a mulher, o idoso na sociedade, entre outros.


Pode até passar despercebida na luz do dia, mas na escuridão da noite, ninguém fica indiferente às luzes do número 207, da rua da Formosa, no Porto. O girar do carrossel, a melodia de encantar que a caixa de música dispara suavemente fazem parar quem ali passa. Mesmo quando a noite já vai alta.

Caixas de música manuais, de corda e eléctricas. Relógios de parede, de estanho. Bolas de neve com música e sem melodia, grandes e pequenas. Aqui há objectos que caíram no esquecimento, mas que dão uma nova vida na decoração de qualquer interior. Há sempre alguma coisa ou algum objecto especial que nos fascina desde pequeninos.

As caixas de música são algo que faz parte de um imaginário que alguns de nós ainda têm e que para outros faz parte do passado. Azuis, cores-de-rosa, verdes, encarnadas ou até mesmo amarelas, há tons para todas as preferências. As formas, os tamanhos e os desenhos em ponto pequeno despertam a atenção de qualquer um.

Lembram-se dos relógios de cuco? Pois é, aqui também há relógios de cuco e com música em madeira, originais da Suíça e Alemanha. Os brinquedos de chapa antigos também têm o seu espaço nesta loja de deslumbrar.

A perfeição reina na loja e deixa os olhos em bico dos mais jovens e até mesmo dos que já andam neste mundo há mais de seis décadas. A porta está aberta a quem  queira espreitar, recordar e descobrir. Uma casa de sonhos antigos, que podem deixar a utopia e…ocupar um lar encantado.

A fantasia não tem preço e as asas da imaginação não têm limite. Voamos o mais alto que pudermos e deixamo-nos levar pelas cortinas do palco das caixinhas de música, onde bailarinas dançam ao som de uma doce melodia. Uma canção que a todos embala, nas noites de lua cheia e não só.

Aqui há clientes de todo o tipo, mas há dois géneros que se destacam em pleno: os que entram à descoberta e os que já a visitam cheios de certeza e convicção.

66 anos de história

Em 1945 começou por ser uma loja de mobiliário, mas com o passar dos anos ficou mais recheada com outros objectos igualmente históricos e belos. Mas ainda continua a fazer mobílias por medida. Uma loja de tradição familiar que vai passando de geração em geração. No natal de 1994, José Emanuel Reis criou na loja de mobiliário uma zona de presentes e lembranças, especialmente com caixas de música e candeeiros de vitral.  Agora, José Reis deixa-se encantar e, em breves palavras deixa-se levar pela magia do espaço. “É um local de encontro de pessoas que gostam de partilhar o imaginário e revivalismo proporcionado pelos nossos artigos, e pela simpatia que procuramos colocar num atendimento o mais personalizado possível. Vendemos sonhos”, refere.

E se quiser levar a sua namorada a afastar as nuvens e entrar no sonho de princesa do casamento, saiba que aqui encontra um presente que jamais ela se esquecerá. Procure por uma bola de neve clara e veja o pormenor.

Depois de ter passado duas vezes seguidas ao sábado à tarde e encontrar a loja fechada, Ana Rita Sá decidiu ir ao Porto de propósito só para pisar o interior das Decorações Reis. Veio de Viana do Castelo para comprar um globo de neve gigante e acabou por levar outros mimos para oferecer: um caleidoscópio, um globo de neve em miniatura e um relógio de parede. Ficou encantada desde que lá foi. “Os objectos acho-os mágicos e a própria disposição, a imitar o antigo é fantástica”, relata sem rodeios. E, acrescenta, destacando um detalhe: “o facto de estarmos à vontade para mexer em tudo, para pôr tudo a tocar música, a simpatia dos vendedores e os próprios objectos são fantásticos. É mágica simplesmente. Transporta-nos para a infância.”

Casa da Fantasia

Já pode começar a coleccionar os objectos de outras épocas. Crie a sua própria cronologia de lembranças e a sua colecção de caixas de música. E se algum dia passar na rua da Formosa e a porta estiver fechada, anote o número de contacto que estiver à vista e ligue. É possível abrir a loja só por sua causa.

Se quiser surpreender alguém com um presente diferente, José Reis aconselha sem incerteza: “Um carrossel com 50 melodias, movimento, luz, som com regulação de volume.”

Se arrastamos os pés, pela calçada escura com os olhos colados no chão, quando a tristeza nos invade o espírito, as Decorações Reis enfeitiçam-nos. Levantamos a cabeça e esboçamos um curto sorriso. Viajamos em segundos até às gavetas da memória de infância, decoradas com as maçanetas de recordações felizes.

O convite fica no ar para quem o queira apanhar, pelas palavras da jovem de 22 anos, Ana Rita Sá: “Vá à loja do mundo dos sonhos, porque não se vai arrepender. É diferente de qualquer outra.”

No castelo de encantar da rua da Formosa, há 50 anos que Joaquim Venâncio recebe todos os tipos de clientes. Realça as caixas de música como o objecto mais solicitado e partilha: “Houve um dia que um casal encomendou 120 caixas de música e pediu para colocar a marcha nupcial. Queria oferecer aos convidados como lembrança de casamento e aconteceu tudo muito depressa. De um dia para o outro a encomenda estava pronta.”

Mas José Reis lembra ainda outra situação memorável. “No outro dia, uma jovem entrou aqui, olhou para a loja e teve de sair para chorar, porque estava emocionada”, conta.

E nisto a voz falha-lhe, ao mesmo tempo que o relógio de madeira abre a pequena porta e anuncia, feliz, as 14 horas.


Livraria Lello & Irmão


Foi considerada pela Lonely Planet como a terceira melhor livraria do mundo. A Lello é uma instituição no Porto e visita obrigatória para quem vem de fora. Faz 104 anos para a semana. Susana Cruto (texto) folheia algumas páginas das suas histórias. Nelson Garrido assina as fotografias

Entra-se e há livros…muitos livros. Um local onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam numa escadaria vermelha, que sozinha conta histórias e ilustra imagens. Na rua das Carmelitas, a Livraria Lello e Irmão faz hoje 104 anos e já mostrou a quem por lá passa, que é mais que uma loja de instrumentos de leitura.

Perto da ala nocturna das galerias Paris, onde os mais jovens acolhem a doce noite com risadas e euforia, está a requintada, histórica livraria da zona da Carmelitas. Uma segunda casa para muitos, um ponto de visita para outros.

A típica biblioteca cheia de livros do tecto ao chão, que vimos na fantasia de ‘A bela e o monstro’ faz-nos lembrar, assim que viramos a página para o capítulo Lello. Os tacos de madeira, todos organizados compõem o chão que os nossos pés pisam levemente. Dois andares e uma união arrebatadora: uma longa e característica escadaria vermelha. São mais de 120.000 títulos que embelezam este local de grande culto nas mais diversas áreas e línguas.

Um refúgio sem dúvida hospitaleiro que faz parte da memória de Beatriz Pacheco Pereira, desde criança. Fundou o Fantasporto, escreve sobre o Porto e luta pela cidade Invicta. “É uma livraria que me acompanha, mas tem um defeito grande. Entra-se atraído pelas montras, sempre cuidadas, mas depois há um momento de esplendor que nos faz esquecer por que entramos, o livro da montra que iríamos comprar. E talvez estes deslumbres, sejam maus para o negócio dos livros”, partilha. Mas também tem uma qualidade. E não demora acrescentar: “Continua a ser uma livraria a sério, como já não há muitas na cidade. Requintada, solene, um templo do livro e do saber. Magnífica. E, para raiva de muitos, no Porto…E o ambiente? Calmo, nada tecnológico e industrial. Entre o sublime e o realista.”

Um recanto sagrado, onde os livros fazem viajar a lugares encantados. Entramos num mundo cheio de pormenores que embelezam o número 144 da rua das carmelitas. Em estilo neo-gótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da Livraria. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência.

Um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração imponente.   Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem  para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado. À esquerda e à direita, nos longos pilares distinguem-se os ilustres homens das caligrafias como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Teófilo Braga ou até mesmo Guerra Junqueiro. E se é do tempo do filme Xangô de Baker Street, recorde-se que aqui foram filmadas algumas cenas desse filme baseado no romance de Jô Soares.

Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. Mas António Pedro Ribeiro não é de representar. Entrou pela primeira vez na livraria há cinco anos e ficou impressionado. Um poeta e cronista do Porto que invade poucas vezes a livraria, mas que já conseguiu traçar uma caracterização bastante poética. “A Lello é um espaço aberto ao leitor e à leitura. Um hino ao livro e à leitura. E é mais do que uma livraria. É uma maravilha da arquitectura. Uma casa do livro do convite à leitura e do convívio entre leitores”, qualifica.

O aspecto arquitectónico chama logo à atenção a quem seja ou não arquitecto. Mas os especialistas da matéria têm mais a dizer. São amigos de longa data, mas foi há sete anos que Vasco Morais Soares, arquitecto da Lello e Irmão, convidou António Fuentes Flores a visitar a reabilitação que tinha concretizado. Veio do México, pisou a obra histórica e não escondeu a satisfação com todo o encanto. E na língua espanhola comenta sem rodeios, as virtudes desta obra. “É um espaço bonito, muito bem feito que preserva e respeita o seu estilo original, com trabalho de madeira também fantástico nas prateleiras. A escada central iluminada e um vidro manchado magnífico, assim como as inovações tecnológicas do seu tempo como o carrinho de faixas para o transporte dos livros, são pormenores belos. Eu não me atreveria a mudar alguma coisa neste espaço”, refere.

A Lello e Irmão é considerada a livraria mais antiga de Portugal. Está no Porto desde 1881 e fica num prédio com vitrais, painéis, colunas e com uma escadaria no centro. “A principal, e extraordinária característica do edifício, é singular. Nunca se ouviu dizer que é parecido com…” é assim que José Manuel Lello, um dos responsáveis da livraria, começa a descrição deste mundo dos livros. Uma pegada deixa segredos, surpresas e tesouros infinitos no chão luminoso da Livraria Lello e Irmão.

Já conhece os turistas e consegue revelar algumas das reacções a este espaço. “Os turistas, além de ficarem espantados à entrada embora a conheçam de fotografias, e portanto querem conhecer o espaço, procuram livros sobre Portugal, o Douro, Vinho do Porto, Azulejos, guias  turísticos, literatura portuguesa traduzida na sua língua, e também recordações da livraria – brochura com a história, postais, etc”, conta.

Há quem diga ao ouvido, que se a Lello fosse uma pessoa, poderia ser um filósofo aristocrata ou até mesmo Salomé, segundo os desenhos de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde. Mas há quem vá mais longe e consiga relatar um dia completo desta mulher. Inês Botelho é autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005) e narra assim um dia desta mulher Lello: “Vinha todos os dias sentar-se na esplanada, a figura elegante, mas nunca totalmente correcta. Na roupa de corte irrepreensível, entre o clássico e o moderno, havia uma bainha dobrada, ou uma pequena nódoa de tinta-da-china, ou um ombro deformado pelo peso da pasta sobrelotada de livros, revistas, jornais.” E deixa correr a imaginação: “Ou então era o cabelo, bem penteado mas desgrenhado pelo vento, ou pelos dedos que o levantavam e enrodilhavam num gesto inconsciente. Ou talvez se limitasse a um excesso de perfume, um odor demasiado intenso a lavanda que lembrava prados junto a um castelo granítico após uma manhã de temporal, ou uma fragrância forte, a tender para o doce e a convocar noites quentes em cafés vagamente orientais.” Mas põe um travão na fantasia e termina: “Algo incerto, imprevisível. Pequenas preciosidades, como os berlindes, canetas, flores secas, caderninhos que numa ou noutra ocasião lhe caíam dos bolsos.”

E se um dia for editado algum livro sobre a história da livraria, Beatriz Pacheco Pereira escreveria assim no prefácio: “Nasceu neo-gótica como era a grande moda do séculoXIX, com ares de Walter Scott, com toques pré-rafaelitas. Depois assumiu-se local de saber e do livro, depois local de romagem nostálgica ou divertidamente turística. Há uma confluência mágica na Lello.”

In Jornal Publico, 8 Janeiro 2010



Natal rima com chocolate, toda a gente sabe. E Susana Cruto sabe onde estão os melhores e mais doces lojas da Invicta. Mas não guarda segredo: Bonitos, Arcádia e Equador têm delícias para todos os gostos. Paulo Pimenta fotografou.

Nas ruas, as luzes coloridas não deixam dúvidas que o natal chegou. Com ele trouxe cheiros e sabores peculiares… Encontrado na forma pastosa, sólida e de bebida doce ou amarga, feito a partir da amêndoa torrada do cacau, assim é o chocolate. Todo o ano é consumido, mas é nesta altura que mais é oferecido.

No norte do país, o frio aperta mas há chocolates artesanais para descobrir, provar e oferecer. Fomos encontrar nas ruas da cidade invicta, três casas de sonho cobertas de chocolate que sugerem as melhores ideias, para os presentes mais saborosos deste Natal. Casas que escondem histórias para revelar.

Perdemo-nos pela Avenida da Boavista. O sol já se pôs e o dia já escureceu. Caminhamos por entre as árvores e pisamos a calçada. Ao fundo da rua Afonso Lopes Vieira, as luzes coloridas fazem-se notar numa casa de bonecas ou melhor de doces, que nos fazem crescer água na boca. Olhamos em redor e ninguém está à espreita. Damos uma dentada e entramos no mundo do cacau da bombonaria Bonitos.

Do lado de fora, as vitrinas já estão decoradas para o natal. Mas os bombons sortidos todos organizados e bem enfeitados destacam-se na perfeição. A mistura de cheiros paira no ar. O espanta espíritos dá conta da nossa presença e deixa a porta encostar lentamente.

Por meros momentos, recordamos o conto de Hansel e Gretel. Mas ao entrarmos, a casa não está vazia. No meio de vários doces, de braços abertos para nos receber, o sorriso doce de Isabel Bonito acena-nos com uma chama de boas vindas.

Começou na cidade do Porto, com uma família ligada às guloseimas desde há gerações e já tem mais de 30 anos. O conceito Bonito mantém esta “tradição doce”ao longo dos anos com grande paixão por tudo o que possa ser uma doce surpresa para os clientes. Aqui tudo é artesanal.
Nos últimos anos focalizou o seu negócio nos chocolates, de fabrico próprio e familiar, com uma variedade de bombons lisos e também de recheio, que poderão ser de frutos secos ou frescos, disponibilizando ainda alguns mimos sem açúcar.

Ao lado do balcão brilham bolachas, bolos, compotas. Todo o ano há produtos que se aliam aos de fabrico próprio: mel, compotas e doces, bolachas, marmelada e chás.
Está a chegar uma cliente e há trabalho para fazer. Uma encomenda de sortidos artesanais. Isabel retira de baixo do balcão, uma caixa verde docemente simples. Uma ternura de embalagem. Isabel preenche a caixa de uma forma tão bela e fácil de admirar. É como se estivesse a construir um puzzle, mas cheio de brilho. Os olhos da hospedeira da Bonitos deslumbram durante toda a visita. A disposição fantástica e a hospitalidade deixa-nos completamente confiantes e bem-dispostos, quando saímos para a rua abraçando a estrada cinzenta.

E se pensa que a sua profissão, nada pode ligar-se ao chocolate, engana-se. Na casa de sonhos, junto ao Foco, há chaves-de-fenda, pincéis para a barba, tesouras e até mesmo estetoscópios em chocolate.

Os clientes já são muitos e diversificados, mas todos gostam de desabafar na doce casa perto do Foco. “São pessoas simpáticas que entram aqui, muitas vezes até aliviam coisas da vida delas, pessoas de quem eu nem sequer sei o nome. Às vezes até parece uma consulta de psicologia. Porque as pessoas chegam aqui, comem um chocolate, conversam um bocadinho. É um local para descontrair. Acho piada, porque acabam por ver aqui, um local de paz, que é muito importante”, conta a gesticular.


Com o cachecol escuro, o sobretudo e as chaves do carro na mão, mas muito atarefada Inês Barbosa entrou há mais de dois anos na loja Bonitos e nunca mais se esqueceu. É professora de filosofia, mas não está colocada. Uma cliente assídua na casa dos doces bonitos. “Os chocolates são fantásticos. Eu gosto de todos, mas gosto mais com recheio de frutas. E estou com a ideia de oferecer no Natal, uns com recheio de caramelo. Uma pessoa entra aqui e parece que está numa loja de brinquedos. Venho sempre todas as semanas. Só quando me obrigarem a emagrecer é que vou parar”, confessa entre risos.

Noz, amêndoa, avelã, coco, café, mentol, a colecção de sabores não tem fim. Os bombons são feitos um a um e parecem peças de joalharia autênticas.

Nada é esquecido na bombonaria Bonitos. Nem mesmo a apresentação. “ As caixas de embrulho são feitas com muito amor e carinho, caprichadas. Uns laços, umas fitas. As caixas decoradas não são feitas em grandes quantidades, mas com grande qualidade. Preferimos não crescer tanto e ter um espírito sempre de qualidade e de apresentação”, esclarece Isabel.

Flores, cones, chapéus, corações, bolinhas ou quadrados. Há chocolates de todas as formas e enfeitados com várias cores. Separam-se por taças de cristais, mas estão de mão dada, na mesa de perdições. Há chocolates para todos os gostos. As pratas a enrolar os diferentes tipos de chocolate deslumbram os nossos olhos. Basta dizer para quem é o presente e Isabel apresenta-lhe de seguida um leque de sugestões saborosas.

“Para o Natal nós costumamos fazer também os de chila com amêndoa que são óptimos. É uma bolinha de chila, depois com amêndoa tostada por cima, coberta com chocolate amargo para corta o doce de chila. São relativamente novidade.” E acrescenta com água na boca: “Temos também as trufas de whisky velho. Que são assim um pedaço de nuvem. Quando se mete à boca, desfaz-se. Lá está, o whisky também faz toda a diferença. Tem uma textura que é uma nuvem autêntica. É fabuloso. E são boas feitas e comidas na hora, quentinhas.”

Aqui há sabores para desfrutar. E antes de abrir a porta para sair, Isabel deixa o apelo: “ eu convido as pessoas a virem cá experimentar, porque eu acho que é mesmo uma diversidade tão grande… e a pessoa põe na boca e se fechar os olhos, quase que se consegue imaginar na infância a comer um bombom de canela, que é parecido com as rabanadas do tempo dos avós.”

A fábrica de chocolate

Depois de se ver em retrato animado com o Johnny Deep a fazer de protagonista, chegou a hora de Margarida Bastos ser a personagem principal da fábrica de chocolate do Porto. A fábrica de chocolate agora na realidade.

Quem se perde nas transversais da Avenida dos aliados, está longe de pensar que por ali perto há uma fábrica de chocolate. Na rua do Almada, o Willy Wonca mora no número 63. A entrada não deixa qualquer dúvida de que estamos num mundo meloso. ‘Arca doce’ é o recado que por cima da porta de entrada, nos brinda já com água na boca. Um espaço pequeno, acolhedor mas literalmente profundo. Com várias secções de trabalho artesanal, emana um cheiro profundo a cacau. Famosa pelos seus deliciosos bombons e línguas de gato de chocolate, esta antiga fábrica de confeitaria pertence à família Bastos desde 1933. Sempre se dedicou ao fabrico de produtos tradicionais de qualidade.

Margarida Bastos gere esta linha de montagem do chocolate e não se cansa de enumerar as variedades que oferece a quem por ali passa. “Nós temos o chocolate tradicional, fabricamos bombons e línguas de gato de chocolate negro e de leite, que é um chocolate com cerca de 51% de cacau, chocolate de leite e chocolate branco. Temos também o chocolate sem açúcar, realça.
Em relação a bombons, há o sortido tradicional. “Temos produtos mais recentes que são os sabores Arcádia. São bombons com recheio, uma espécie de ganache com aromas: morango, tangerina, limão, menta, etc. Temos as origens Arcádia. São fabricadas a partir de um chocolate de uma só origem, por exemplo só de Madagáscar ou Tanzânia. Há também a tablete Arcádia que tem flocos de cereais dentro do chocolate. E lançámos recentemente os bombons com Vinho do Porto, que são deliciosos”, refere Margarida olhando para os diferentes tipo de chocolate que estão na bancada de uma das secções da fábrica.
O chocolate aquece e escorre. Há moldes por encher e desenhos para criar. As gavetas castanhas estão assinaladas com o nome de cada chocolate. Vê-se escrito margaridas pequenas ou línguas de gato pretas. O cheiro destaca-se bem e a água na boca não pára de crescer.
Situada no coração do Porto, a Arcádia orgulha-se por ser uma marca portuguesa que glorifica a tradição do fabrico artesanal de produtos de qualidade.
Os chocolates da arcádia podem ser encontrados ainda nos centros comerciais Norteshopping, Dolce Vita Porto e Tejo , Gaia Shopping, Mar Shopping , Cidade do Porto e na Avenida da Boavista, no Porto.
Quando tropeçar nesta rua, entre na chocolataria Arcádia, desfrute de chocolates artesanais e peça para visitar a fábrica.
“O chocolate com vinho do porto. É uma oferta que penso que muita gente ainda não conhece. É um chocolate diferente e acho que vale a pena provar. Temos as embalagens com fotografias da cidade do Porto e das caves da Calem”, aconselha Margarida.
Macarrone de chocolate
A Rua Sá de bandeira é longa para tantas lojas históricas. Cada uma tem o seu espaço e os seus segredos. No número 647 a chocolataria Equador esconde uma história de encantar e miminhos especiais.
Equador é a região do globo onde existe os maiores produtores de cacau e por isso Celestino Fonseca deu o nome ao seu projecto de design e agora de chocolataria.
Na montra, uma estação de comboio com duas carruagens cobertas de neve deixa-nos curiosos. Um rapaz e uma rapariga separados pela linha férrea. Um reencontro ou uma despedida. Deixa-nos na expectativa.

Damos um passo em frente. Entramos num lar rústico, acolhedor e tentador. De um lado, uma peça em madeira restaurada, acolhe tabletes de chocolates embaladas com cores e diferentes padrões. O grafismo leva-nos à época colonial, quando Portugal era um dos maiores exportadores de cacau do mundo.
Chocolates com qualidade ímpar. Doces que se casam por temas e contam, uma história que começa assim: «Na Cozinha da Casa da Joaninha” há uma quinta e uma janela para o campo. Pretexto para desfilar, desde a cozinha, às tabletes de chocolate com recheios de fruta: mirtilo, framboesa, maracujá. Próximo à quinta há o “Castelo do Laranjal”. No jardim há maracujás. Com eles as trufas saem deliciosas e são arrumadas em caixinhas douradas de seis a 30 unidades.»
Tudo com um contexto, como acentua Celestino Fonseca: “a Chocolataria Equador trata de associar os produtos a uma história, com objectos, cenários e personagens.”

Há muito chocolate por escolher e Celestino recomenda para este natal: “Macarrone é um produto de origem francesa, que nós estamos a introduzir no Porto. Mas é de confecção nacional. Tem duas camadas de amêndoa e depois tem os recheios de sabores: café, baunilha, menta, chocolate etc. E depois há os semi-frios que são sobremesas especiais. Para além da receita, tem várias texturas. É feito por camadas. Tem a parte visual da decoração e depois nós desenvolvemos uma caixa especial de embalagem. É um miminho especial.” Leva o chocolate e um postal bem ilustrado para recordar com belas imagens a chocolataria da Sá da bandeira e Celestino convida a conhecer a história dos protagonistas da Equador: Álvaro e Joaninha.

CONTACTOS:
Arcádia:
Rua do Almada, 63. 4050-036 Porto
Telefone: 222 001 518
Fax: 222 001 519
E-mail: geral@arcadia.pt
Site: www.arcadia.pt

Bombonaria Bonitos:
R. Afonso Lopes Vieira, 150. 4100-020 Porto
Telefone: 226094568
Email: geral@bbonitos.com
Site: http://www.bbonitos.com

Chocolataria Equador:
Rua Sá da Bandeira nº637. Porto
E-mail: geral@chocolatariaequador.com.
Site: www.chocolatariaequador.com

In jornal Público, 18 de Dezembro de 2010
http://static.publico.pt/publicanatal/chocolate.html#


O frio já aperta e bem. Mas para recordarmos o Verão, nada melhor que um filme cómico para nos deixar muito bem dispostos.

De Todd Phillips, realizador da comédia “A Ressaca”, chega-nos mais um divertido filme, desta vez com Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis nos principais papéis.

Mais de uma hora e meia a rir à gargalhada. São as melhores palavras para descrever este filme. Do ridículo ao mais banal, mas com uma pitada agridoce. Em tempo e horas vê-se de tudo…literalmente de tudo.

Downey é Peter Highman, um homem feliz que vai ser pai pela primeira vez, dentro de alguns dias. No entanto, nem tudo é um mar de rosas: Peter não consegue apanhar o voo que parte de Atlanta. O marido sempre bem comportado vê-se obrigado a fazer a viagem de regresso a casa com um candidato a actor, Ethan Tremblay.

Contudo, aquilo que seria uma evidente viagem de carro, torna-se numa sucessão de surpreendentes e hilariantes acontecimentos. Uma viagem que tem mais quilómetros do que o normal, porque as rotas vão mudando à medida que cada ponte é atravessada.

Se pensa que já viu de tudo, está totalmente enganado. Há muito para ver nestes longos minutos.

Atrás das câmaras, os operadores tiveram muita perspicácia nas filmagens, porque há planos muito fortes e bem conseguidos.

Contratempo atrás de contratempo. As peripécias aparecem sem fim à vista. Mas a sensibilidade veste-se em cada segundo do filme.

Uma película de acção, romance, sensibilidade e muita comédia.


A REDE SOCIAL

04Nov10

As respostas a todos os segredos que o facebook possui. A plataforma social a que muitos estão ligados, esconde várias histórias.

Neste filme, ao computador tudo é possível. O som do teclado é o pano de fundo desta peça fílmica realizada por David Fincher.

A trilha sonora que compõe a acção do filme é a mais adequada. Simples e directa.

Numa noite do ano de 2003, o génio da programação e aluno de Harvard, Mark Zuckerberg, senta-se ao computador e começa a trabalhar numa ideia nova. Aquilo que inicialmente era apenas uma mistura de programação e blogging, cedo tornou-se numa rede social à escala mundial, que revolucionou a forma de comunicar. Seis anos e 500 milhões de amigos depois, Mark Zuckerberg é o mais novo bilionário da História… mas para este empresário, o sucesso vai trazer-lhe também problemas pessoais e legais.

Baseado em factos reais, esta história está muito bem contada, com os protagonistas certos. Todos os pormenores desta realidade, estão destacados com rigor.

Jesse Eisenberg, Justin Timberlake, Andrew Garfield, Armie Hammer, Max Minghella, Dakota Johnson, Brenda Song, Josh Pence, compõem o elenco deste drama.

A fotografia de Jeff Cronenweth está muito bem conseguida e bem estruturada.
O argumento tem muito conteúdo peculiar, que é preciso estar atento a todos os diálogos.
Uma história para cada um aprender com cada minuto do filme.


São testemunhos reais e capítulos marcantes. Eles estão atados a uma cadeira de rodas e não têm total mobilidade. A acessibilidade é proibida em vários sentidos. Não é interdita na esquerda nem na direita. Nem está assinalada com o sinal vermelho. É mais que isso.

Chega antes da palavra acessível e depois de acessão. Pela linguagem do dicionário acessibilidade significa «Qualidade do que é acessível, do que tem acesso. Facilidade, possibilidade na aquisição, na aproximação: a acessibilidade de um emprego.» Muitas vezes é uma usada de forma inadequada.
Homens e mulheres. Raparigas e rapazes. Uns conversam à vontade sobre o assunto. Outros encolhem-se e apoiam-se nos monossílabos. Mas em cada palavra que soletram, ouve-se o tom de sonhadores. Não demonstram pressa em chegar ao cume da felicidade. Não querem ficar para trás. Por isso, todos os dias são vencedores e heróis de uma aventura de barreiras arquitectónicas. Gincanas que se atravessam em cada esquina. Toda a rua é uma surpresa. E cada surpresa é uma viagem cheia de adrenalina imposta.

A vida num minuto

O acidente foi há seis anos. No dia 14 de Junho de 2004 Manuela Ralha estava de saída para um dia normal de trabalho. Era a altura que dava aulas na escola Martinho Vaz de Castelo Branco, na Póvoa de Sta. Iria e tinha várias actividades relacionadas com a música. Dirigia grupos corais e dava aulas de técnica vocal. Professora e amiga tinha auxiliado uma colega de Religião e Moral, que ia apresentar as Marchas Populares na escola. Era o dia da exibição.

Estava parada numa fila de trânsito, na estrada que vai para Vialonga, a 100 metros do portão da Central de Cervejas. O trânsito estava parado e estava na fila. De repente apareceu um camião desorientado. O embate apanhou-lhe de surpresa e deu-se o acidente que mudou para sempre a vida de Manuela. ‘A vida num minuto’ é o nome do blogue que criou para transpor os seus sentimentos nesta luta. As rotinas fora de casa são poucas, mas as dificuldades inerentes à falta de acessibilidade são mais que uma mão cheia. Residente em Vila Franca de Xira, a deslocação para a fisioterapia todos os dias não é fácil. Os obstáculos são inúmeros nesta viagem. “Quando chego ao pé do edifício, tenho que ser ajudada porque tem lancis no passeio demasiado altos, carros mal estacionados, rampas de acesso ao edifício Planície em Vila Franca demasiado inclinadas…e o acesso ao edifício faz-se se o elevador não estiver avariado. Depois espero que me vão buscar no regresso”, relata.

Além desta viagem, Manuela tem a fazeres fora do seu lar. Demoram muito mais que o tempo que previa. Basta pôr o corpo fora de casa e começa a aventura. “Uns dias vou às compras, que faz parte do meu papel de mulher e mãe, o que é também uma aventura, devido ao sítio onde colocam os produtos, normalmente demasiado altos. Se tenho que ir ao multibanco, é uma festa. Estico-me para o utilizar e quase caio da cadeira abaixo, porque não estão devidamente adaptados”, conta. E acrescenta lembrando alguns episódios: “Os restaurantes onde vou primam pelo problema da minha cadeira não caber debaixo da mesa, ao que eu já me habituei, e das casas de banho não permitirem a utilização de pessoas com mobilidade condicionada, o que faz de mim muitas vezes uma atleta de alta competição ou uma artista de circo. Não tenho acesso à saúde, porque a minha médica de família fica no centro de saúde de Vila Franca de Xira, no segundo andar, sem elevador”.

As barreiras arquitectónicas

Telefones públicos e multibancos. As pessoas com limitações locomotoras são esquecidas nestas actividades. As sugestões para contornar este problema podem ser algumas. David Fonseca estudou no curso deEngenharia de Reabilitação e Acessibilidade Humanas na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e está familiarizado com esta lacuna. “Hoje em dia que se fala tanto em telecomunicações e nos média, uma cabine telefónica que tenha tamanho para uma cadeira de rodas e um telefone público com uma altura mais baixa para uma pessoa de locomoção limitada por um determinado período da vida ou de forma permanente poder telefonar ou consultar as informações dadas por cabinas de informação pública. Penso que as entidades responsáveis deviam estar muito atenta pois à muito tempo que se sabe que há cabinas mais largas e telefones mais baixos que se poderiam aplicar,”sugere.

Acessibilidade e reabilitação são temas muito debatidos nos dias de hoje. Abel Trigo é dos primeiros licenciados em engenharia de reabilitação e acessibilidade humanas pela faculdade de Vila Real. “Este curso consiste na aplicação da ciência e da tecnologia na melhoria da qualidade de vida de populações com necessidades especiais, nomeadamente pessoas com deficiência, idosos e acamados em áreas como o acesso a tecnologias e serviços, educação, emprego, saúde e reabilitação funcional, mobilidade e transportes, vida independente e recreação,” decifra este curso.

Nos dias que correm o ideal de eliminação de barreiras ainda está muito longe. “Nunca poderemos falar de uma igualdade ou de uma situação ideal, uma vez que o ser humano não foi feito para andar numa cadeira de rodas, e porque a morfologia dos terrenos e a própria paisagem natural impossibilitará sempre o acesso, por aquelas, a alguns espaços ou locais. Ainda assim, quero acreditar que, de forma geral, o caminho será este”, realça Pedro Andrade de 30 anos, um rapaz de mobilidade reduzida.

O atletismo em cadeira de rodas

Ainda no distrito de Vila Real, mas na vila de Lordelo, Mário Trindade já é um herói atleta paraplégico. Na vila ainda se observa algumas barreiras arquitectónicas, mas com o passar do tempo têm vindo a desaparecer. A autarquia de Lordelo mostrou-se sensível a esta problemática e com esta atitude foi atribuída a bandeira grau ouro no que diz respeito às acessibilidades. 1992 foi um ano marcante na vida deste atleta. Um ano em que tudo mudou devido a uma escoliose. A operação para corrigir não correu tão bem como era esperado e quando abriu os olhos da cirurgia já estava paraplégico. “Estou longe de ser uma estrela, mas sinto que sou uma pessoa que algumas pessoas admiram pela minha força e vontade de ir a luta. Dar a volta por cima só tinha uma coisa em mente quero viver e ser feliz, e aquilo que me causava alguma tristeza tenta mudar, para mim nunca foi difícil aceitar o facto de ter de passar os dias numa cadeira de rodas e isso ajudou muito, as pessoas que lidam diariamente comigo esquecem-se que uso uma cadeira de rodas, isto porque eu em parte também quase me esqueço, se temos um problema…ele é muito maior se lhe damos demasiada importância”, confessa.

Do outro lado do oceano mas ainda em Portugal, o atleta Hélder Fernandes já lutou por inúmeras barreiras, mas ainda está longe da meta de obstáculos. “Tirando o que já tenho e consegui, falta-me uma habitação, própria, mas como vivo de uma pensão de invalidez, não tenho acesso ao crédito bancário, para conseguir uma casa minha”, confessa. E de Ponta Delgada acrescenta: “Aqui nos Açores, falta uma mentalidade mais aberta, por parte dos Açorianos, em relação às pessoas com deficiência, para tudo, para o desporto, para socializarem, trabalharem, acomodam-se muito, e cruzam os braços, ficando em casa.”

A acessibilidade no emprego

Acessibilidade é também no emprego. Mas a realidade mostra uma total inviabilidade quanto a esta lacuna de várias pessoas. Para os necessitados o centro de emprego não resolve os problemas. “Quando fiquei paraplégico inscrevi-me no centro de emprego, mas nunca me chamaram para nada. Até que comecei eu a procurar. Trabalhei durante cinco anos num salão de jogos. Mais tarde tive num clube de vídeo durante um ano. No final desse ano fui tirar um curso de auxiliar administrativo e depois fui trabalhar para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), onde estive durante quatro anos. Depois deixei de trabalhar para me dedicar ao desporto de corpo e alma”, conta o atleta.

Em Armação de Pêra, Pedro Alves Andrade está desempregado. Desde 2007 que está numa cadeira de rodas. “O instituto do emprego não resolve estas situações! Com o momento de “crise” e desemprego que se vive, o centro de emprego tem dificuldades extra em colocar trabalhadores com deficiência. Ainda para mais, quando todos os apoios e incentivos à contratação de trabalhadores com mobilidade reduzida, não saem do papel! Estou inscrito há 5 meses e tive 0 propostas”, relata com revolta.

As molestas covas na calçada

Buracos e mais buracos. Concavidades e falhas nos passeios. Passadeiras de peões sem rampas. As barreiras arquitectónicas não param de aparecer. A cada passeio existe um muro de dificuldades por passar. Dos mais pequenos casos até aos grandes problemas. Com uma pequena diferença, estes cidadãos estão impossibilitados de uma movimentação normal e sem ajudas por todas as cidades. Portador de uma paralisia cerebral, Pedro Monteiro partilha a sua rotina com a cidade de Aveiro e sugere contornos para esta inacessibilidade: “Deve-se sensibilizar pessoas com deficiência e as famílias a terem outros comportamentos perante a sociedade, saindo mais de casa, a não ter vergonha por andarem numa cadeira de rodas, a participarem, activamente, na sociedade e não em grupos fechados que só servem ainda mais para discriminarem as pessoas ‘ora lá vem o grupo do deficiente’”. E acrescenta: “Depois disso, a sociedade começavam a ver as pessoas com deficiência com respeito e pessoas com os mesmos direitos e deveres. Até lá, somos vistos como Judeus na Alemanha Nazi.”

A descriminação

Descriminação é palavra que não falta na revolta destes seres especiais. “Há um certo tipo de descriminação por parte da sociedade. Embora ano após ano se note uma grande melhoria, mas principalmente nas cidades mais pequenas, vilas, aldeias ainda há muita descriminação. Quando fiquei deficiente aqui há uns 17 anos atrás também fui muitas vezes descriminado, nas minhas procuras de trabalho ouvi muitos “não” por ser deficiente, pois não tinha uma boa postura para estar por trás de um balcão, e muitas vezes ouvia a palavra coitadinho, mais isso para mim era dar-me ainda mais força para continuar”, confessa Mário Trindade.
Contudo, há quem tenha uma opinião mais positiva. “Talvez não haja descriminação. Apesar de tudo, a mentalidade da sociedade foi evoluindo e hoje, será injusto falar em descriminação”, afirma Pedro Andrade.

Mas os episódios de descriminação não terminam. Nelson Mendes não esquece o 10º ano de escolaridade. “Cheguei a chorar na turma porque eu não conseguia passar os apontamentos no quadro, porque a professora de Biologia e Geologia apagava os apontamentos antes de eu terminar de escrever. Muitos dos meus apontamentos tinha o início e não tinha o fim. E só não consegui completar o 10º ano de Escolaridade, porque apareceram-me as escarras «feridas» na minha perna esquerda, devido as muitas horas que eu ficava sentado na minha cadeira de rodas, dado que só podia ficar sentado 4 horas seguidos e eu fazia 7 horas seguidas”, relembra.

As leis da acessibilidade e os edifícios

Os edifícios que não cumprem as leis da acessibilidade para deficientes preenchem as linhas de Portugal inteiro. Prédios altos com escadas, sem elevadores nem rampas são o que não falta em todas as cidades portuguesas. Porém ainda se consegue observar um ou outro edifício construído a pensar nestes seres. Pedro Homem de Gouveia é arquitecto na Câmara Municipal de Lisboa e descodifica o modo de realização destas construções. “A acessibilidade deve ser o mais natural, discreta e integrada possível. A “imagem” da acessibilidade deve ser, no fundo, a falta de barreiras. O essencial a ter em conta é que a acessibilidade está em causa ao longo de todo o processo, nas várias escalas do projecto (desde o momento em que se define a altura a que vai ficar a entrada, até ao momento em que se escolhe o tipo de torneira) e nas várias fases da obra. E não só da obra, da gestão também – o melhor exemplo (negativo) é o do WC acessível que está trancado e ocupado com material de limpeza.”

As cadeiras de rodas estão numa constante corrida de obstáculos. As portas dos edifícios não têm medidas adequadas para este transporte. Para ser acessível uma porta deve ter uma largura útil (livre) mínima de 77cm, e dispor de ambos os lados de uma zona de manobra (espaço livre) que permita a quem passa manobrar a cadeira de rodas de forma a alcançar o puxador da porta. Não se pode chamar normal a uma porta que não deixa parte dos seus utilizadores passar. As passagens têm de ser acessíveis a todos para que sejam consideradas ‘normais’.

O arquitecto Pedro Gouveia está a par da importância da acessibilidade na concepção dos edifícios de habitação. “A acessibilidade é fundamental. Primeiro, porque é um direito – todos têm o direito de usufruir plenamente dos edifícios, bens e serviços. Segundo, porque é uma questão de interesse público – e isto, o envelhecimento demográfico vai tornar cada vez mais evidente, à medida que uma parte cada vez maior da população vai perdendo a autonomia devido às barreiras à acessibilidade, gerando uma procura de serviços de apoio que será insustentável para o erário público. Terceiro, porque é um critério objectivo de qualidade – edificações acessíveis serão sempre mais confortáveis, seguras e funcionais, em benefício de todos os utilizadores (com ou sem deficiência) ”, refere.

As pessoas com dificuldades locomotoras são esquecidas nas plantas dos edifícios. Mas há quem defenda que este esquecimento pode diminuir. “Se existe esquecimento, têm tendência a diminuir. É um facto, que devemos ter presente, que a legislação que estabelece as exigências em matéria de acessibilidade é relativamente inovadora, especialmente se tivermos em conta hábitos que já levam centenas ou milhares de anos. Isto é um desafio para todos os agentes do sector da construção. Actualmente, não podem ser licenciadas obras que não cumpram as normas de acessibilidade exigíveis em cada caso, e os profissionais têm uma noção cada vez mais clara das responsabilidades em que incorrem em caso de incumprimento (civil, criminal, disciplinar, etc.)”, sustenta o arquitecto da Câmara Municipal de Lisboa.

As associações de … apoio

Siglas de cores diferentes. Presidentes com rostos diferentes e histórias de vida distintas. As associações de apoio a estas pessoas são inúmeras, mas há quem não as veja com grande utilidade. “Portugal gosta de criar becos, ou grupos, faz parte da raça humana criar grupinhos, logo cedo na infância criamos os nossos grupos de amigos falamos com A, B, C e desprezamos o D, as Associações, na maneira geral, só existem para criar grupinhos e para lutar pelas mesmas causas do que outro grupo só com nome diferente, assim só estamos a diminuir o poder de todos os deficientes se houvesse uma única associação. Mas pronto até é divertido e dá para angariar dinheiro para almoços e jantares. Veja o caso da Espanha que só tem uma grande associação de Deficiente, a ONCE”, analisa Pedro Monteiro, portador de uma paralisia cerebral. Apoiada nesta ideia, Manuela Ralha vai mais longe. “Muitas vezes estas associações servem-se a si próprias em vez de servirem o propósito dos associados ou do grupo que deveriam apoiar. Por exemplo, quantos somos? No Brasil foram feitos censos para permitir que haja uma noção efectiva da população portadora de deficiência…porque os cidadãos brasileiros, os portadores de deficiência foram para a rua protestar, mas isso é outra história. Nós somos um povo muito passivo em tudo. Se de facto as associações trabalhassem mais, haveria um apoio mais efectivo, uma fiscalização mais firme e uma inclusão mais efectiva”, sublinha.

A Organização Mundial de Saúde define hoje a Incapacidade como um produto da relação entre a pessoa e o meio. Por outras palavras, a Incapacidade não é uma “cruz” que a pessoa carrega e que só a ela diz respeito, mas algo que é provocado pela forma como uma edificação não respeita as necessidades do utilizador. Existem edifícios incapacitantes, que geram vários tipos de dificuldades: na circulação, orientação, etc.

São muitos, os seres bípedes que correm todos os dias a calçada preocupados com os horários a cumprir e, não reparam nos que precisam de uma mão. Mas há muitos que reparam e que em vez de ajudar, humilham os que têm contrariedades de movimento. “Mas que raio de gente é esta? Que confunde deficiência com debilidade mental? Ninguém é deficiente por vontade própria. Mas ninguém se deve envergonhar da deficiência”, invocou Marina Mota expressando raiva e rancor na peça ‘Piratada à portuguesa’ que esteve nos palcos em 2009.

Muitas pessoas envergonham-se da sua debilitação. “Porque não é fácil conviver com uma situação de dependência. Porque não têm apoio psicológico nem familiar que as faça enfrentar a situação. Porque as barreiras físicas e psicológicas são tantas que a pessoa desiste, pura e simplesmente desiste. Eu própria sinto-me por vezes, como o dom Quixote, a lutar contra moinhos de vento e apetece-me desistir, baixar os braços, entregar-me à depressão. A sociedade é demasiado cruel com aqueles que são diferentes”, clarifica Manuela Ralha.

Noutra perspectiva há quem tenha uma opinião distinta. “A meu ver os deficientes não precisam de qualquer apoio solidário. Precisam sim do direito de possuir uma vida digna e lutar por isso. Temos o apoio do terceiro mundo”, sublinha Pedro Monteiro de Aveiro.

O quotidiano

As rotinas destes cidadãos diferem em muito. Os cuidados são mais que muitos. Os olhos têm de estar bem abertos. Atenção aos sentidos proibidos. Reduzir a velocidade e conduzir a cadeira de rodas com prudência. Tolerância zero. O perigo anda à espreita. Ana Couto tem 21 anos e desde o acidente de parto teve a companhia da cadeira de rodas. “Um dia saí com uns amigos para ir visitar umas faculdades. Uma delas foi o ISEG que fica no Rato. Aqui em Odivelas no metro, por acaso existe acessibilidade, mas a chegada ao metro do Rato foi uma aventura. Existe um elevador para o exterior, mas por azar não estava a funcionar. Tive que ir ao colo dos meus amigos e ainda por cima, aquelas escadas são íngremes e devem ser mais ou menos 80 escadas. E ao chegar a rua, os passeios estão completos de carros”, conta.

Mas há ainda quem não altere a rotina pela diferença de movimento. “Sou dirigente associativo e atleta. Levanto-me por volta das 8h30m, vou treinar cerca de uma hora. Depois de um duche vou tratar de assuntos da associação, tais como reuniões, palestras em escolas, inscrições em provas. Por volta do meio – dia almoço. Da parte da tarde, ou fico em casa a tratar de assuntos da ANACR, tais como ver o correio, actualizar sites com noticias, enviar e-mails para associados, isto ate por volta das 17h. Mais tarde volto a ir ate a pista da UTAD para mais um treino de 1h30m. Após o treino regresso a casa, janto e por volta das 20h30m vou tomar café conviver um pouco com alguns amigos, e por volta das 0h00m hora de ir dormir”, relata Mário Trindade.

Estudante do segundo ano de psicologia na cidade do Porto, Maria Basto teve problemas no parto. As consequências resumiram-se a uma cadeira de rodas. Movimenta-se sem receios. Quando chega a horas de viajar não olha para trás. “Viajo como qualquer outra pessoa. Passo a cadeira para o porão e vou sentada no lugar que me é destinado”, expõe. Nos aeroportos os cuidados são muitos. “Ainda só viajei algumas vezes e não para muito longe. De carro e avião. Guardei excelente opinião do atendimento e acessibilidades ao nível dos aeroportos Europeus onde passei.”

As idas ao tribunal para Manuela Ralha foram difíceis. “Foi de facto memorável. Imagine chegar ao tribunal e deparar-se com uma escadaria interminável à entrada e outra para a sala de audiências. Fiquei enervadíssima, até porque não suporto andar no ar. Claro que me recusei a que me levassem, mas estava a chover. Então, entrei pelo lado dos presidiários, o meu marido e o segurança pegaram na cadeira em peso no ar e puseram-me lá dentro. Permaneci em baixo, sem saber como as coisas estavam a decorrer, enquanto o meu advogado subia e descia a escada para me perguntar o que eu pretendia fazer cada vez que necessário. Senti-me um cachorro abandonado. Foi absolutamente humilhante,” revela.

Andar nos transportes públicos também não é tarefa fácil. Com 38 anos de idade, Nelson Mendes conhece bem esta realidade. Um tumor cervical transformou a sua actividade e a sua mobilidade. “É muito duro e muito pesado andar de cadeira de rodas. Nem sequer conseguimos andar de transportes públicos. Para podermos andar de comboio temos que ligar para a CP com 48 horas de antecedência e dizer a que horas saímos e a que horas vamos voltar. Não temos direito de ir passear quando quisermos e voltarmos quando pretendermos”, constata Nelson Mendes.

O esquecimento dos cidadãos

Os serviços públicos não dão prioridade a estes seres diferentes. Não existem senhas para atendimento prioritário. Os passeios estão ocupados pelo mal estacionamento dos veículos. Esquecimento ou desprezo dos cidadãos. “Estava-me a esquecer também dos deficientes sociais, aqueles que ocupam o estacionamento daqueles que precisam, dos cidadãos que entopem as caixas prioritárias e dos que dizem que os deficientes deviam ficar trancados em casa… Todos estes “deficientes sociais” tornam as minhas saídas maravilhosas…e contribuem cada vez mais para que eu fique em casa, sem vontade de sair. Mas eu sou teimosa e continuo a insistir em fazer uma vida integrada, embora na maior parte das vezes não o consiga”, salienta Manuela Ralha.

A esperança diária

Os desejos de largar o veículo de quatro rodas são infinitos. Nas redes sociais, todos se unem numa família. Quando há novidades, ninguém fica sem informação. Os comentários chovem e a esperança observa-se em cada sílaba escrita. «Ser Lesado: Tratamento com células-tronco traz esperança a paraplégicos» é o título que se vê publicado num perfil do facebook. Segundo mais tarde, a partilha de ideias dispara. “Estou numa cadeira de rodas há 15 anos e o meu sonho já não é andar, mas sim voar”, Paulo Gominho. “Sou cadeirante tetraplégico há 13 anos, se esse tratamento me deixar paraplégico, já fico satisfeito porque, troquei a esperança pela pressa!”, Flávio Caldeira. Mas há ainda quem se revolte com estas notícias. “Os resultados dessas mesmas descobertas já tem “clientes” os restantes “tristes” tem de se limitar ao seu enquadramento físico e estabelecido pelo MUNDO…mas um dia vencerão!”

Parem de dar falsas esperanças”, Bruno Gregório. “Basta de sermos cobaias, somos humanos, por tal devemos ser tratados como tal. Mas hospitais que fazem estes testes, deviam dar conta de também da manutenção dos mesmos, não operar uns tantos para sacar os subsídios e depois colocar os operandos ao Deus dará. Que eu saiba, no Rovisco Pais aconteceu umas tantas operações, eu pelo menos tenho conhecimento de quando lá passei, de cinco. Pois estes mesmos estão entregues a si próprios, porque as cobaias não já não servem, e a manutenção, sim digo manutenção, porque foram usados como objectos, nunca mais os chamaram. Se chamaram alguns, foi só para consultas de rotina, e outros foram lá por pedidos e cunhas à doutora Arminda, a quem desde já dou já os meus parabéns por ter sido a única do quadro de médicos que mais zelou pelos seus doentes, obrigado Drª Arminda”, Martinho Horta. São comentários que não terminam. Respostas que apoiam. Apelos e palavras de força que se lêem com olhos bem abertos.

Construir uma melhor acessibilidade para incapacitados é um dos desejos de todas estas pessoas com deficiência e para isso tem de existir uma arquitectura para todos. No fundo mudar a mobilidade negativa para positiva. Definir acessibilidade torna-se cismático. Mas o arquitecto Pedro Homem de Gouveia propõe: “A acessibilidade é a capacidade do meio edificado de assegurar a todos uma igual oportunidade de uso, de uma forma directa, imediata, permanente e a mais autónoma possível.”

“Não sei o que é ser paraplégico porque não sou, mas ser possuidor de uma paralisia cerebral em Portugal é o poder de mudar muitas mentalidades, lutar e dar valor à vida”, afirma Pedro Monteiro.


‘ONDINE’

29Out10

A pequena sereia de Neil Jordan. Um genuíno conto de fadas … com cheiro a maresia. O típico sonho cor-de-rosa com as ondas do mar, onde os cavalos-marinhos pregam rasteiras.


Era uma vez… Um pescador e uma mulher secreta. Uma história romântica com um toque de mistério.
Ondine é um conto de fadas moderno que narra a história de Syracuse (Colin Farrell), um pescador cuja vida se transforma quando encontra uma mulher linda e misteriosa (Alicja Bachleda) na sua rede de pesca. A pequena Annie (Alison Barry) passa a acreditar que a mulher é uma criatura mágica, enquanto Syracuse apaixona-se desesperadamente por ela. No entanto, como todos os contos de fadas, a magia e a escuridão caminham lado a lado.

Ondine é uma história de amor e esperança.
É essencial a escolha da banda sonora para este conto cheio de ondas desviadas. As correntes fortes embatem nas rochas acastanhadas. Mas a música escolhida para sonorizar este momento é tão bela como a moldura do momento.

As interpretações dos actores são fáceis de apreciar e saudáveis de ver.
Alison Barry é especialmente fantástica. A suavidade e descontracção com que veste a pele da sua personagem é invejável a outras crianças. Entra no mundo da fantasia do início ao fim.

É relevante apontar o trabalho de Christopher Doyle nas belas costas irlandesas. Toda a fotografia do filme é bela. As paisagens, os pormenors, as expressões faciais são tratadas de uma forma tão…peculiar.

O argumento é acessível, simples a todos e igualmente romântico.
Um filme que nos embala a todos e que nos faz acreditar em sonhos cor-de-rosa.

Há mistérios para ser revelados e teorias para pôr à prova. Até que ponto um pescador pode dar o nó com uma sereia? Será possível na vida real… ou apenas no céu da fantasia?

Se há mistérios de Lisboa que podem ser surpreendentes, há lendas do mar que podem deixar os olhos de todos … em bico.




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